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O Globo 11 de JULHO de 2006



O Globo
Rio de Janeiro, Brasil
11/JULHO/2006
Por Eduardo Fradkin

CAIXAS DE SURPRESAS

Deborah fecha um ciclo de sua vida com a obra “Dínamo”

A relação de Deborah Colker com esportes é antiga. Dos 12 a 17 anos, ela jogou vôlei no Hebraica, e, dessa época, guardou amizade com as feras Jacqueline e Isabel, rivais do Flamengo. Chegou a ser convocada duas vezes para seleção carioca de vôlei, mas nunca vestiu seu uniforme. Quando largou o esporte, começou a dançar e, em poucos anos, a coreografar. De 1984x a 1994, ao em que fundou a sua própria companhia de dança, ela fez coreografias para peças de teatros, videoclipes e shows, abertura de
novela, propagandas e programa de tv. O espetáculo“Vulcão”, primeiro de sua grife, entrou em cartaz em julho de 1994, em plena Copa do Mundo. Houve um dia que seus bailarinos assistiam a um jogo do Brasil nos camarins do teatro Municipal entre uma matinê e uma
sessão noturna. No ano seguinte, ela criou “velox”, que reuniu dança e esporte, e agora anuncia o fim desse longo
ciclo de sua vida com “Dínamo”, que estréia nesta sexta – feira, no Teatro João Caetano.

- O Esporte sempre esteve presente em minha vida. Explorei semelhanças e diferenças entre atletas e bailarinos. Mas discordo radicalmente de quem diz que bailarinos são atletas. Como coreógrafas, o que me inspirou foi o embate entre os corpos em jogos de futebol
e basquete, a dança espontânea e involuntária que os jogadores executam para realizar seus objetivos de marcar um gol ou ponto - alega Deborah, que resgatou 32 minutos de “Velox” para compor a primeira parte de “Dínamo”.

A segunda parte corresponde ao espetáculo inédito no Brasil “Maracanã”, que estreou em janeiro na Alemanha e terminou a temporada européia na última sexta – feira, na Áustria. Na transposição de “Maracanã”, viu um longo documentário inglês sobre as origens do futebol.- Descobri que uma das influências desse esporte foram
às lutas - comenta ela.

No palco, isso se reflete nos movimentos dos 18 bailarinos (nove homens e nove mulheres), que às vezes sugerem golpes, outras vezes recriam de forma esterilizada dribles, carrinhos, passes e formação de barreira, e na maior parte do tempo simplesmente dança, sem preocupação com referências explicitas ao esporte. - Eu sou uma coreógrafa, não um técnico de futebol. Mas
acho que, se fosse um, estaria mais para Felipão do que Parreira – brinca Deborah, que fala alto (sem grosseria, vive “ligada na tomada” e está freqüentemente com uma xícara de café na mão). A disposição da coreógrafa, aos 45 anos é impressionante, ela não se contenta em orientar seus bailarinos, que tem entre 19 e 34 anos, como faz um técnico com seus jogadores.

Ela entra em campo e participa da extenuante coreografia de “Velox”, cuja parte final se desenrola numa paredão vertical que os bailarinos (e Deborah) escalam a mão, agarrando-se a pequenas saliências e as usando para dar piruetas, sem estarem amarrados a fios.
Na segunda parte do espetáculo, a do “maracanã” em versão melhorada (segundo a própria Deborah), também
há uma parede vertical – com o tracejado de um meio-de-campo - no fundo do palco, mas ela tem uma função diferente. - é como uma continuação do proscênio, como se fosse um fundo infinito. Quis dar aos espectadores a sensação
de um raio de visão de 360° graus. Além disso, queria que os bailarinos flutuassem, pois no futebol se tem que sais do chão! Desta vez, os bailarinos são suspensos por cabos
Proclamando-se uma diretora, além de coreógrafa, ela colabora na criação das trilhas sonoras, que têm em comum o ecletismo. Em seu “Maracanã”, ouve –se funk carioca e música clássica (processada com samplers). - Estudei piano clássico por dez anos e gosto de opinar nas trilhas. Não gosto de funk, por exemplo, mas ele ficou fantástico no espetáculo. É uma música energética e tem tudo a ver com futebol, pois ambos são manifestações de massa: o futebol é uma atividade coletiva, assim como um baile funk – compara ela, que diz ter tentado recriar os sons de um estádio de forma artística, sem descambar para o barulho

. – Música é essencial. Não dançamos o barulho. A experiência adquirida como a criação de “Velox”, jamais teria conseguido fazer “Maracanã” em quatro messes, que
foi o tempo que tive para isso – conta.

“Maracanã” foi uma idéia alemã

O espetáculo, diz Deborah, foi uma idéia de um centro
cultural de Hamburgo, na Alemanha, que inscreveu o projeto na Fifa, com o nome da coreógrafa na ficha técnica. - A fifa aprovou e, quando eu disse que os ajudaria achar outro coreógrafo, disseram – me que tinham vendido o projeto com meu nome nele. Topei faze – lo, mas com algumas condições. Umas delas foi fazer os ensaios no Rio. Seis bailarinos estrangeiros vieram para cá, e ela contratou outros dez brasileiros para completar o elenco, pois sua companhia já estava comprometida com “Nó”. -Aliais, acabei de voltar de uma turnê na Grân-Bethania, com 24 apresentação de “Nó”. Estive com dois espetáculo em cartaz ao mesmo tempo na Europa – orgulha-se Deborah.

O prestigio de que a coreógrafa goza hoje foi conquistado com esforço. Ela lembra que, preste a fundar seu grupo de dança contemporânea, ouviu conselho inquietante da própria mãe, aflita. - Ela me disse: “forme um grupo de dança de salão, minha filha, pois esse negócio de dança contemporânea não vai dar certo!” Naquela época, a realidade da dança no Brasil era bem diferente. Ter uma companhia contemporânea exigia garra e significava literalmente subir pelas paredes, que foi o que fiz.

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