A Tarde - Coluna Opini 11 de MAIO de 2000
A Tarde - Coluna Opini Bahia, Brasil 11/MAIO/2000 Por Mary Weinstein
DEVER DE CASA FEITO COM CORREÇÃO
O espetáculo Casa, da Cia. de Dança Deborah Colker, transforma em arte ações do cotidiano, como dormir, namorar e brigar.
Quem assistiu ao espetáculo de Deborah Colker e sua companhia, no Teatro Castro Alves, viu uma peça que beira à perfeição. Limpo e cool, apesar de, no início, deixar o espectador hesitante, Deborah Colker mostrou uma Casa arrumada. Nada estava fora do lugar. Nenhuma perna fui levantada inutilmente e, gra?as a Deus, n?o houve cambr?s nem grand jet?s. O espet?culo ? moderno. N?o mostra exageros nem pretextos para encompridar performances. A lista de quedas e saltos e de encaixes e carregas comp?s coreografias no tempo certo, o tempo todo (65 minutos). E no espa?o certo tamb?m: o cen?rio de Gringo Cardia. Em Casa, n?o h? seq??ncias ilustrativas, As a??es de dormir, escovar os dentes, namorar e brigar s?o apenas sugeridas. Nesse cotidiano n?o tem sofrimento nem dramatiza??es. H? o que h?. H?, inclusive, um amanhecer de Jorginho de Carvalho, premiado iluminador, que fazia a luz do, entre outros, Asdr?bal Trouxe o Trombone, na d?cada de 80.
Deborah Colker ? figura conhecida da Bahia de outros tempos. Nos tempos das espetaculares oficinas de dan?a contempor?nea que a Ufba promovia (leia-se Dulce Aquino, com a anu?ncia do professor Ernst Widmer), ela perambulava pelos arredores do Campo Grande e pelo Terreiro de Jesus, onde, naquela ?poca, funcionava a Escola de Dan?a, no antigo pr?dio da Faculdade de Medicina. Todo ano, ela vinha integrando o grupo Coringa, que arrasava o velho TCA, que costumava abrigar as vanguardas mais an?rquicas que se podiam inventar. O grupo era muito querido, porque tinha um modo solto de locomover-se no palco. Os dan?arinos faziam coisas geniais, sem ficar parecendo que estudavam Martha Graham exaustivamente. Parecia que dan?avam ao vento. N?o tinha nada de acad?mico.
O grupo Coringa pertencia a uma das figuras mais belas que os verdadeiramente entendidos em dan?a j? viram rodopiar: Graciela Figueroa, uruguaia, dona de uma movimenta??o das mais singulares. Pois Deborah Colker criou-se nesse grupo carioca, e d? at? para identificar em Casa movimentos remanescentes dessa linguagem. Certas quedas, certos pulos nos bra?os dos outros, o salto virado e especialmente aquela andada pelas paredes, que, na ? poca do Coringa, era bem menor e sem o ombro do parceiro no ch?o a apoiar. O efeito j? era genial naquela ? poca. S? dava para fazer no teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, j? que o TCA, at? Casa, nunca tinha tido paredes t? o s?lidas no palco.
Mas, enfim, tudo isso para dizer que Deborah Colker segue abrindo portas e janelas para a dan?a feita no Brasil. Ela fez o dever de Casa direitinho. Apesar de n?o ser t?o vertiginoso quanto Rota, espet?culo anterior, Casa? ? muito bom e ponto. Principalmente, porque ? na medida certa. Nem de mais, nem de menos.






