Dance Europe 30 de JUNHO de 2005
Dance Europe
Londres, Inglaterra
30/JUNHO/2005
Por Donald Hutera
SAUDAÇÕES DO BRASIL - Donald Hutera resume o que está rolando de mais quente por aqui
Sem querer reduzir os cidadãos de uma rica, ampla e variada nação multicultural a uma generalização simplista, eu diria que os brasileiros são um dos povos mais calorosos, exuberantes e naturalmente sensuais que conheço. Estas mesmas qualidades (e poderia atribuir-
lhes ainda uma certa generosidade ou personalidade especial) transbordam em sua dança.
A Companhia de Dança Deborah Colker é um exemplo em primeira mão, conforme me foi lembrado no novo festival Movimentos em Wolfsburg, Alemanha. Cerca de uma hora de distância de Berlim a cidade, fundada pelos nazistas, é sede do império Volkswagen. Diz-se que seu gigantesco e futurista parque de diversões e eventos, o Autostadt, é maior que Mônaco inteiro. O festival Movimentos (escrito assim mesmo, do italiano) ocorre num dos antigos prédios industriais, habilmente convertido numa concha acústica. Em 2005, as atrações incluíram a Compagnis Montalv-Hervieu, o Aterballetto, o Zurich Ballet, o Cloud Gate Dance Theatre, a Tero Saarinen Dance Company e a de Colker do Rio, exibindo a estréia mundial de NÓ.
Dividido em duas metades complementares, NÓ é uma tentativa de Colker de expressar-se fisicamente sobre a filosofia do desejo, transformando-a num espetáculo dinâmico e inquietante. O primeiro ato mostra uma árvore feita de cordas, no centro do palco, que eventualmente se divide em quatro partes fálicas, depois numa selva de cordas separadas navegada por quinze bailarinos ágeis, lindos, extremamente desejáveis. As cordas são o principal recurso coreográfico a partir do início, quando um homem rápida mas cuidadosamente amarra uma mulher confiante e a suspende numa variedade de posições e cabos-de-guerra. Mais tarde, com uma corda amarrada em sua própria cintura, este mesmo homem é manipulado por outro. Dois outros jovens, amarrados pelos tornozelos, trançam num dueto uma cama-de-gato. Um longo cipó de cabelo, estilo Rapunzel, cobre o fundo do palco. Ao seu redor, um par de mulheres parecendo uma o reflexo da outra sugere jogos - Lady Godiva, com seus longilíneos troncos, braços e pernas. Há também interações grupais: quatro ou cinco bailarinos se enrroscam em reconfigurações contínuas e convolutas que costumo associar a Balanchine ou a Cunningham.
O pano de fundo negro do Primeiro Ato dá seu lugar ao cenário de cunhas alvirrubras e triângulos vermelhos e brancos do Segundo Ato. Aqui o ponto focal é uma caixa transparente, aberta em cima (que Colker chama de vitrine). Pinos nos cantos permitem aos bailarinos pular para dentro e fora da caixa, ou corajosamente equilibrar-
se sobre a borda. Projetado pelo tradicional colaborador de Colker - Gringo Cardia - este genial objeto sugere muitos níveis de exibição, separação e contenção, sempre seguindo a regra: pode olhar, mas não pode tocar. É uma Caixa de Pandora, borbulhante de potencial. A pele é espremida contra a janela. Dentro, homens e mulheres por um momento calçam sapatilhas de ponta pretas (o supremo objeto de fetiche de um dançarino). Do lado de fora, rodopiam numa sequência de duetos das mais sofisticadas, líricas, soltas e atléticas de Colker. Ela sabe como construir um clímax. Mesmo que este não tenha optado por um fecho explosivo, levando o público ao delírio, para mim o final teve um impacto emocional incomum.
NÓ pode bem ser a produção de Colker mais bem sintonizada musicalmente até hoje, graças a trilha sonora magnífica - uma colagem compilada e remixada por Berna Ceppas que vai do Ravel até um relaxante Chet Baker, sublinhada por ritmos brasileiros. Os espertos figurinos cor-de-pele de Alexandre Herchcovitch tarjam rubro ou negro os genitais, enquanto janelinhas armadas, atrás, exibem as curvas das nádegas por baixo das saias plissadas e perneiras de caubói.
Mas o aspecto mais refrescante de NÓ é sua decisão de evitar os clichês comuns sobre os jogos de amarrar, em favor da noção da troca consensual. A dança de sensações de Colker tem um apelo libertador. Ao invés de nos esfregar na cara o sexo hardcore e a pornografia, ela aborda seu tema com aguçada inteligência cinética e um tom leve e popular. NÓ não é só sobre sexo, nem simplesmente explora os impulsos de voyeur da platéia. Mostra, pelo contrário, um espelho de nossas próprias fantasias e desejos. Os bailarinos - Colker incluída, em breves apresentações - camafeu no segundo ato - habitam um mundo multifacetado que somos convidados a conhecer. Juntos, oferecem uma visão do dar-e-receber de um erotismo pansexual que, sem desmerecer o espetáculo, poderia tranquilamente ser visto por uma criança. O resultado é um programa fantástico, que também nos faz sensualmente parar para pensar.
É interessante comparar o NÓ ao recente espetáculo de um ato, Lecuona, do Grupo Corpo, que consiste de uma sucessão de duetos hiper-estilizados, mas gritantemente copulatórios, batizado em homenagem a Ernesto Lecuona, fértil compositor do século XX apelidado de “O Gershwin Cubano”. A coreografia inventiva de Rodrigo Pederneiras dá um novo sentido ao termo “dança de salão”. Ao som de músicas intensas, cada dueto ocorre numa caixa de luz com cores saturadas, onde mulheres apetitosas, quase masoquistas de tão flexíveis, são manipuladas por fortes homens de preto. Este espetáculo me fascina como sendo a fantasia coreográfica de um macho latino, com sua visão de como as mulheres talvez pudessem gostar de serem tratadas. Será mais do que jogos de poder sexuais reduzidos a um malabarismo amador por pseudobailarinos? Pederneiras converte as exaltadas emoções nas canções num sonho vívido e concentrado de luxúria e desejo que faz lembrar, digamos, o mais picante dos duetos de Kenneth MacMillan. Tudo acaba num pastelão pouco convincente, de um romantismo cafona.
Já Verissimilitude, da companhia anglo-brasileira Zikzira Physical Theatre, existe num plano inteiramente diferente. A coreógrafa Fernanda Lippi e o diretor cineasta Andrá Semanza já colaboraram previamente em As Cinzas de Deus, um filme de arte que retrata estados de espírito memoráveis, imagens e atuações sempre dedicadas. Pode-se dizer o mesmo de Verissimilitude, um espetáculo vivaz de uma hora de miséria abstrata e ambígua, inspirada no pensamento do filósofo francês Michel Foucault (como em, “O mundo está interligado como uma corrente… As coisas, espalhadas pelo universo, respondem uma é outra”).
Quatro bailarinos comportam-se sobre um palco, ao centro um retângulo de grama sobre o qual um ventilador gira, devagar, o tempo todo. A cenografia do Orlando Castaço e a iluminação sombreada do Guilherme Bonfanti são excelentes. Seus movimentos vão do debater-se histórico e gestos tresloucados és ondulações estacionarias com repetições minimalistas. O compacto, careca Tuca Pinheiro e o comprido Marçal Costa se misturam no palco, virando-se violentamente para um lado, depois para cima. A Heloísa Domingues e a Lívia Rangel, com sua cabeleira sarará, quicam de traseiro no chão enquanto giram os braços.
Você precisa ser formado em filosofia para entender estes e outros gestos, alguns dos quais, nus? Não. O espetáculo é árido e inconsolável, interiorizado e inicialmente vagamente irritante, mas gradualmente suas verdades viscerais foram me cativando. Numa reversão dos papéis típicos, os homens não são os perseguidores e dominadores das mulheres, mas seus possíveis salvadores, em busca também eles próprios de salvação. É como se estes quatro atormentados coitados tentassem nos sinalizar, através da densa escuridão metafísica. Na verdade, assim como a trupe da Colker, eles são nós mesmos. Só vai depender se escolhemos ou não reconhecer esta relação.






