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Dance Magazine 01 de FEVEREIRO de 2000



Dance Magazine
Oakland, EUA
01/FEVEREIRO/2000
Por Donald Hutera

DEBORAH COLKER - A GRANDE RODA DO BRASIL

“Eu sou uma senhora, mas também sou uma garotinha. Gosto de brincar com assuntos sérios” declara Deborah Colker.

No vigor dos seus 39 anos, esta exuberante coreógrafa brasileira tornou-se rapidamente um personagem principal no cenário cultural do seu país. A Companhia de Dança Deborah Colker tem apenas sete anos de existência e, até o momento, são cinco trabalhos no seu repertório. Mesmo assim, Deborah já conquistou o mais surpreendente grau de popularidade mundial na dança. No Brasil, seus shows atraem público de todas as idades e classes sociais, totalizando 200.000 pessoas. E quantas coreógrafas podem se gabar de ter ficado em cartaz por nove semanas, como aconteceu com “Casa”, seu último trabalho apresentado em sua cidade natal, o Rio de Janeiro, em outubro passado.

Realmente, existem poucas, o que torna Deborah em fenômeno cultural e popular no seu país. Mas o que faz o trabalho dessa pequena loura de origem russa-judia, extraordinariamente confiante tão propalado? E o que a faz pulsar?

Tomando a direção da iluminada praia de Copacabana no seu usado Volkswagen, Deborah aponta para a galeria noturna de prostitutas, jogadores de futebol e turistas espalhados ao longo da avenida após a meia-noite. “Pode-se ver todo tipo de coisa aqui”, ela explica. “Não é bom e não é ruim. É fantástico”. E é precisamente esse tipo de ampla observação e entusiasmo pela vida que Deborah injeta em sua dança. Tanto quanto a coreógrafa, eles não são nada mais do que produtos pelo gosto pela cultura de onde “brotam”.

Temos que pensar neles como peças de uma sofisticada fusão populista, ou como arte inteligente com coração. No entanto, nós os identificamos como sendo autenticamente brasileiros como sua criadora.

“Meu trabalho é como o Brasil” concorda Deborah, “a mistura das cores, a dinâmica, os ritmos, as alegrias e uma grande possibilidade de descoberta. Temos pouca história, apenas quinhentos anos. As pessoas pensam que existem macacos, jacarés e índios nas ruas. Tudo bem que somos um país de terceiro mundo, mas é uma honra ter como influência a beleza, a criatividade e a singularidade do país com sua música e sua miséria co-habitando com a riqueza”.

A variedade de inspirações de Deborah é um reflexo de sua própria história. Seu falecido pai foi violinista e maestro. Ela estudou piano por doze anos. Seis anos de sua vida foram dedicados à psicologia. Durante sete anos, ela foi jogadora amadora de voleibol e seu treinamento profissional na dança começou aos dezessete anos, incluindo balé clássico, jazz e sapateado. “Até 1984, eu só queria dançar o que meus professores e coreógrafos me apresentavam”, diz Deborah. “Mas comecei a pensar e fazer algo eu mesma”; daí um grande número de filmes e peças se seguiram, incluindo o plano de movimento para a versão teatral de Uma Noite de Verão, do diretor Werner Herzog.

Deborah foi também professora de balé para profissionais e amadores. A visão dessa experiência pode explicar como ela conseguiu o toque especial comum a um artista: “Eu adorava ter alunos arquitetos, bailarinos, atores e da área médica”, declara Deborah. “É enriquecedor quando se colocam pessoas de diferentes universos juntas. Era importante fazê-los trabalhar com o estômago e a respiração, pensar na saúde e mover-se com inteligência em suas atividades rotineiras”.

Em 1993, Deborah e alguns alunos criaram um número de dança como parte de uma apresentação de novos talentos no Rio. Animada com a receptividade positiva, ela partiu para lançar sua própria companhia. A apresentação subsequente no Teatro Municipal durante o prestigiado “O Globo em Movimento”, dividindo a abertura do festival com “Momix”, gerou interesse internacional. O show que Deborah apresentou “Vulcão” já foi visto em pelo menos quatro cidades. Dois anos depois, graças ao generoso e permanente patrocínio da Petrobras, a companhia se estabeleceu numa antiga fundição, localizada na Lapa e a uma pequena distância da sede de seu patrocinador.

Transformada em um centro cultural, a Fundição Progresso, além de abrigar o escritório administrativo, oferece espaço para o armazenamento de toda a contra-regra, bem como facilidades para os ensaios.

A coreografia de Deborah congrega disciplina física ousada com um valioso conceito artístico. “Velox”, montado em 1995, apresenta uma enorme parede colorida e pontilhada com pequenos suportes, nos quais os bailarinos se balançam, se penduram e giram. “Casa” enfoca a arquitetura do corpo num contexto de ginástica selvagem doméstica. O criativo cenário foi baseado na própria casa de Deborah, com seus diferentes níveis, enquanto que os movimentos derivaram das tão conhecidas atividades domésticas como: cozinhar, comer, dormir, brigar, vestir-se, despir-se e fazer sexo.

Mas é com “Rota”, criado em 1997, que a Companhia Deborah Colker faz sua estréia em Nova York, de 15 a 20 de fevereiro, no Teatro Joyce. O trabalho foi idealizado quando de sua visita a Disney World, em 1995. “Eu não podia acreditar”, lembra Deborah. “No primeiro dia, percebi que tudo com que queria brincar estava ali: movimento, humor, diversão, inversão e velocidade. Pessoas de idades e raças diferentes; devido a adrenalina, tornei-me criança como meus filhos (uma filha de 15 e um filho de 12), algumas vezes enfrentando problemas pelas longas filas para passear nos brinquedos, mas me divertindo bastante também”.

“Rota” “surfa” numa trilha sonora onde Mozart faz parceria com The Chemical Brothers e Strauss - o outro lado do disco do Tangerine Dream. No primeiro ato, um entrosado grupo de quinze bailarino(incluindo Deborah) trabalha, luta, brinca, dorme e se coça, numa mistura animada de movimentos clássicos, sobrepostos inteligentemente por gestos corriqueiros. Comportando-se como vigorosos e maleáveis adolescentes numa alegre farra, este extrovertido grupo injeta um novo ar cinético no mecanismo da vida diária. A segunda parte, num compasso imaginário e tendo a beleza de um caleidoscópio, reveste os bailarinos como astronautas de Da Vinci, como se eles estivessem fugindo para se juntar a algum circo inferno-celestial. A imagem que predomina é a de uma roda gigante de 7,5 metros de diâmetro pesando uma tonelada e meia, emoldurada por escadas e lembrando muito o filme “2001: Uma Odisséia no Espaço”.

Já que Colker não pode proclamar-se como inventora da roda, este número demonstra claramente quão inventiva ela pode ser lidando com uma. O grupo de bailarinos é “sexy” e desafia a lei da gravidade, girando sobre o gigantesco objeto circular com facilidade. No momento em que o caleidoscópio atinge seu “gran finale” - após os dançarinos terem se transformado de felizes e musculosos “hamsters” em carrinhos de carrossel humanos - a platéia também está “girando”.

Em alguns momentos, especialmente no segundo ato, “Rota” lembra Pilobolus com pinceladas de Elizabeth Streb. Deborah confessou nunca ter visto qualquer trabalho dela, e considera seu próprio trabalho como “movimento em busca de diversão” e “sensação com inteligência”. “Rota” carrega consigo a carga do imprevisível, como se algo fosse acontecer durante a cena do enorme mapa (na verdade, um molde de vestido que serve de pano de fundo no primeiro ato) ou sucumbir é surpresa do desafio da gravidade no segundo ato. “A dança começa no chão”, explica Deborah, “então vamos para o ar onde há a densidade e a respiração são diferentes. É como os astronautas que vivem uma vida diferente, treinando durante anos para fazer apenas uma viagem a Lua. Para conquistar o espaço, eles tem que entender a gravidade”.

É nesse suave, mas, ao mesmo tempo, majestoso evento teatral que Deborah mostra sua habilidade em transformar novamente uma bem cuidada e vigorosa forma de arte em diversão. “Eu quero honrar a música e o vocabulário clássicos da dança”, ela confessa, “mas quero uni-los com uma linguagem contemporânea e, ao mesmo tempo, fazer algo que dê prazer. Reconheço que o passado é importantíssimo e eu o respeito, mas não quero me manter presa a ele”.

Em “Rota”, Deborah trabalha em vários níveis espaciais e conceituais, sem tropeçar nos limites da abstração da terra de ninguém. Isto ela consegue fazer brilhantemente, porque mantém sua dança e ela mesma fundamentadas em conceitos do cotidiano.

“Quando você faz algo na roda, ela te dá as respostas”, declara Deborah. “Você tem que entender Newton, mas, no meu trabalho, não quero falar somente de filosofia do equilíbrio, física, geometria, volume e peso. Quero falar das pessoas de rua, TV, meus cachorros (ela tem quatro) e meus filhos. Ser uma artista não significa ficar afastada. É ser mãe, comer, dirigir, ir à praia. Se você não tiver uma visão do mundo, você não pode ser coreógrafa”. “Rota” tem o potencial de colocar o mundo a seus pés. As críticas em Londres foram unanimemente favoráveis. A companhia voltará no próximo verão com o trabalho de 1996, intitulado “Mix” - a fusão de “Vulcão” e “Velox” - no Barbican Center. Da mesma forma que a apresentação de “Rota” no Joyce, a atual proposta fez Deborah vibrar de alegria. “Sou muito ambiciosa”, diz Deborah, “mas não por dinheiro. Quero apenas que meu trabalho seja visto”.

Como sua troupe, Deborah possui uma grande e brilhante personalidade. Ela parece unir sua jovialidade e vida com o espírito de uma criança precoce e espirituosa. “Os homens da minha companhia dizem que sou mais homem que eles”, ela declara no meio de uma gargalhada. Contudo, Deborah é bastante orgulhosa. “Sou muito persistente”, ela confessa. Não importa onde a companhia se apresente, após cada show, ela assiste ao vídeo daquela noite de espetáculo. Não nos surpreende que ela diga que tem insônia e é perfeccionista.

Ela é também uma guerreira. Deborah lembra quando negociava seu primeiro contrato com um agente no Rio. “Nós todos sabemos que a dança é importante”, disse colocando um tom de voz empostada quando da negociação. “E consegui convencer os patrocinadores de que a dança também é um bom negócio”. O diretor do teatro no qual a companhia deveria se apresentar sugeriu uma temporada de duas semanas. “Eu disse não! Quero ficar pelo menos quatro semanas em cartaz. Trabalhei nesse espetáculo durante oito meses e, além disso, o Rio é a minha cidade e é o que eu quero!”, disse isso batendo com força na mesa. “E eu ganhei. Nós tivemos o público”. Ela considera essa vitória mais significativa que assumir “slogans” pelo seu trabalho. “É uma estratégia política. Os teatros do Rio começaram a dar mais tempo para temporadas de dança. É bom para a nossa dança e para todo o Brasil” e completa sabiamente “É importante não ficar curtindo o sucesso”.

“Ela não conhece limites”, assegura uma das bailarinas da companhia, Carolina Wiehoff, falando sobre sua chefe. Fernanda Cavalcanti, uma outra companheira, confirma: “no balé, são normalmente oito tempos, então você começa de novo. Com Deborah, são oito, talvez dezenove, e nós brincamos dizendo que continuaremos contando até chegar a um milhão, então faremos uma festa”.

Com salário garantido, os bailarinos de Deborah são bastante versados em dança clássica e contemporânea, bem como em movimentos atléticos. “Sempre digo aos bailarinos que, por favor, não me mostrem técnica. Eles têm que interiorizá-la. Com essa disciplina, eles podem fazer tudo. Não ficam aprisionados, pelo contrário, ficam livres”. Ela trabalha seus bailarinos exaustivamente, mas com muito cuidado. “Amo meus bailarinos. Quando se ama, temos bons e maus momentos. Temos que ser pacientes. Ás vezes, acontece não poder me aproximar de uma bailarina por achar que ela precisa ficar sozinha. Na semana seguinte, sinto que ela precisa de mim. Então me aproximo, conversamos e trabalhamos”.

“Risco é a minha paixão”, admite Deborah. “Ás vezes, alguém do grupo tem muito medo. A primeira vez que uma das garotas enfrentou a roda gigante, ela chorou muito.”Não pare!”, eu disse, “você tem que fazer!” E foi um grande teste para ela, pois quando sentiu que podia fazer, foi como se tivesse renascido da força que ela não sabia que tinha. É um desafio constante e um jogo. Eu preciso que meus bailarinos me acompanhem e digo: “vocês não podem prestar atenção só quando estiverem com a bola”.

O Brasil é um país enorme, marcado por uma grande diversidade de talentos no mundo da dança, que também é grande. Nesse contexto, as intenções de Deborah nem sempre foram compreendidas nem bem recebidas. “Eles me acusam de não fazer dança”, ela diz. “Não é cultural, é muito fácil. A parede é ginástica, a roda gigante parece irreal”; e, por um bom período, os críticos queriam me rotular. “Deborah parece com Trisha Tharp? Não, ela vem do mundo dos esportes. Não, porque ela dança. Bem, então ela vem do mundo do show”.

Eu sou Deborah”, ela rebate, “uma pessoa diferente. Claro que tenho influências o tempo todo. Das plantas, dos meus cachorros… de você. Sou uma pessoa atenta a tudo e informada especialmente sobre artes. Meus melhores amigos são escritores, diretores de filmes, pintores, fotógrafos. Eu adoro quando algo de bom pode entrar em mim e ficar. Contudo, é diferente quando você estuda bastante alguma coisa e tem uma referência. Não é o meu estilo. Nunca fui aos Estados Unidos ou Europa para estudar dança. Nunca vi muitos vídeos”.

Deborah continua sendo um perfeito exemplo de como uma pessoa pode estar entrosada com seu lugar. “Meu mundo é como o Brasil”, ela declara, “e o Brasil se parece comigo: nunca se cansa. Ao mesmo tempo, as pessoas aqui sabem apreciar o mar e sentir a brisa. É bastante sábio poder entender coisas simples como estas. É genial como Fred Astaire dançando. Sim, é isso mesmo, não posso dizer mais nada”.

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