Danse Conservatoire 01 de OUTUBRO de 1999
Danse Conservatoire
Paris, Fran
01/OUTUBRO/1999
Por Celi Barbier
COMPANHIA DEBORAH COLKER
A Cia. de Dan?a Deborah Colker ?, sem d?vida, uma das melhores do Brasil. Pela qualidade das coreografias (cujos temas universais comovem um vasto p?blico) e a dos dan?arinos, n?o est? longe de conseguir um bom lugar no meio das companhias privadas mais importantes do mundo. O sucesso de suas turn?s na Europa e nos Estados Unidos ? prova disto.
Uma parte desse sucesso deve ser partilhado, sem d?vida, com o muito poderoso patrocinador da Companhia, a Petrobras (centrais petrol?feras e metal?rgicas brasileiras). ? a Petrobras quem assegura as turn?s nacionais e internacionais e, mais importante ainda, permite aos 28 assalariados da empresa Colker uma remunera??o vi?vel, tanto no plano profissional como no plano social.
Ciada em 1994, a Cia. de Dan?a Deborah Colker est? sediada no Rio, em pleno centro da cidade: um amplo espa?o que inclui um atelier para a confec??o dos figurinos, vesti?rios, chuveiros bem instalados, um dep?sito para os cen?rios e um belo palco com um assoalho flutuante que faria suspirar de prazer as articula??es de todos os dan?arinos.
“Casa” ? a ?ltima produ??o de Deborah Colker; a primeira apresenta??o aconteceu em 10 de setembro no Rio. Construir uma casa ? construir espa?os, uma esp?cie de arquitetura do movimento. A Casa de Deborah Colker nos fala do cotidiano: o jardim, os gatos no telhado, a cozinha, as refei??es, as roupas, a TV, o banheiro, o corredor, as portas, a ins?nia, o descanso, o casal, as discuss?es, a sala, as crian?as. Surpreendente no talento, esta obra est? pensada, estruturada e realizada com min?cia. A arquitetura de Casa ? funcional e fascinante ao mesmo tempo: beleza das linhas e das formas servindo perfeitamente ao jogo das situa??es. O cen?rio de Gringo Cardia pesa seis toneladas. Seis toneladas de talento.
Casa concreta e abstrata, espa?os fechados e abertos. Principalmente abertos a todos. Pois, para Deborah Colker, o contato com o p?blico tem um papel primordial. Em Casa, esta conex?o estabelece-se a partir dos gestos simples e das situa??es do cotidiano com os quais o espectador poderia identificar-se. Armadilha de humor alegre, alegria f?cil, escondendo uma investiga??o profunda sobre a vida: o mundo das grandes cidades (espa?o de fora) assim como no “espa?o interior”, aquele dos gestos n?o conclu?dos, das frases n?o ditas, dos olhares procurando um ponto de equil?brio (interior). O homem em situa??o permanente de ascens?o e de queda. Alegoria moderna do anjo ca?do? As linhas verticais e horizontais s?o quebradas. Os dan?arinos desafiam sem cessar a lei da gravidade. Personagens que parecem os do grande pintor contempor?neo Baselitz. Astronautas do banal. As cenas se seguem, com uma grande plasticidade. Colker n?o nega, ali?s, a beleza, nem a musicalidade, nem a emo??o. Que estranha coreografia contempor?nea!
Os quinze dan?arinos que integram o Conjunto s?o ent?o bonitos, precisos, eles t?m uma condi??o f?sica espl?ndida e uma bela qualidade t?cnica. O treinamento cl?ssico ? assegurado por tr?s diferentes professores para alcan?ar um trabalho mais espec?fico de saltos, voltas, rapidez, coordena??o . . .Quanto ? forma f?sica dos dan?arinos, ? a pr?pria Deborah que se encarrega. ? de perder o f?lego.
O equil?brio perfeito aproxima-se do desequil?brio. Deborah Colker gosta de brincar entre os dois tamb?m com respeito ? trilha sonora: insolente, pelas misturas e pelos contrastes, ? bem sucedida gra?as ?s m?sicas de Jimmy Hendrix, Jacques Brel, Ennio Morriconi, os Beach Boys e . . . Felix Mendelssohn-Bartoldy (o Allegro Assai Appassionato do Quarteto de Cordas N? 4). A dan?a ? a imagem do movimento que se transforma em a??o mas que s? tem sentido se estiver carregado de emo??o. N?o h? explos?o coreogr?fica nas cenas de conjunto, por exemplo o bel?ssimo momento, quase b?blico, em cima do Quarteto de cordas de Mendelssohn “Refei??o-Cozinha”, o tema da Fome. Entre o Allegro Appassionato e a coreografia s?bria um controle perfeito da catarse. Deborah Colker explica que ela n?o se restringe em caracterizar sentimentos como tristeza, alegria, raiva . . . impondo aos dan?arinos caretas falsas. A emo??o, um canal muito estreito: situa??es e gesto sugeridos, permitem em princ?pio ao p?blico sua identifica??o com a obra, e depois sua confian?a. Unicamente ap?s isto essa emo??o pode ser estabelecida. Deborah emprega para isto um processo quase liter?rio, pr?ximo ?quele de Marguerite Duras. ? o momento, para Deborah Colekr, de nos levar al?m. As luzes de Jorginho de Carvalho real?a o cen?rio. Servindo aos dan?arinos atrav?s da obra, elas tornam a no??o “tempo-espa?o do exterior - do interior” percept?vel ao campo sensorial. ? assim que, no final do dia, esta alegre e viva Casa se encerra nela pr?pria. Sob os claros-obscuros das luzes, parece estranhamente um povoado de muralhas gigantes. No momento em que a ?ltima muralha se eleva, h? algu?m l? fora que poderia parecer conosco.
Fora da “Casa”, da sociedade, da alegria, do dia, este algu?m, segurando-se na muralha com as m?os, anda pelo vazio, suspenso pelo seu pr?prio destino . . . ele nem escutar? o grito das sirenas que gemem sobre os detritos de uma Sociedade.
Final m?stico: mal visto, mal falado, um homem voltando assim ao para?so perdido? Ou melhor dizendo, a coragem de um magn?fico “unhappy end”? O primeiro foi um sucesso brilhante. A sa?da dos espet?culo movimentada. Deborah conseguiu um milagre: uma enorme popularidade o meio de todas as classes sociais, j? que seu trabalho ? muito bem elaborado.
Casa parece uma tela de uma grande mestre: perfeito dom?nio do espa?o na est?tica das linhas e das formas (movimentos), da verdade das cores e da luz a emo??o), do ritmo interior . . . O “racionalismo emocional” de Deborah Colker est? se tornando um cl?ssico.






