Der Tagesspiel 08 de MAIO de 2005
Der Tagesspiel
Berlim, Alemanha
08/MAIO/2005
Por Sandra Luzina
O AMOR É SÓ UM AGRAVO (DANO, TERMO JURÍDICO). DEBORAH COLKER EM MOVIMENTOS
Bem, agora existe então um balé de “bondage”: Deborah Colker mostra em sua nova coreografia “Nó”, que teve sua estréia mundial no Festival de Dança Movimentos, na Usina de Força de Wolfsburg, jogos de amarras à brasileira. Muito artístico e estético. Vexatório (NT: não chega a ser “humilhante”. Pego em situação desagradável) mas nem tão degradante. E “Nó” é justamente sobre desejo e controle, sobre laços de amor e os inevitáveis desdobramentos.
Em 1970 Ronald D. Laing, fundador do movimento da anti-psiquiatria, lançou o seu “Nós” (NT: plural de nó). Já com Colker o “double bind” é bem sólido, palpável. Os bailarinos se armam com cordas e estudaram profundamente as técnicas dos nós, laços e amarrações. Aqui ninguém quer se livrar das suas amarras. Muito menos as mulheres. O balé lembra um pouco a expulsão do paraíso: os bailarinos usam malhas cor-da-pele, aplicações pretas realçam o gênero.
O homem amarra os braços da mulher atrás da cabeça. Cintos se enrolam sobre peito e abdômen, um laço é colocado em torno de seu pé. Mas essa mulher parece estar no controle. Amarras e asas: ela é levantada pelos cintos, pendula, balança, rodopia. Voa desligadamente pelos ares. A bela dependurada nem remete às mulheres balouçantes do japonês Araki, as quais estão entregues passivamente ao desejo e ao voyeurismo masculino.
Deborah Colker, que tem sua própria companhia no Rio de Janeiro, tem bailarinos fantásticos, como fica provado esta noite. Principalmente as mulheres são estonteantes: atleticamente fortes e ao mesmo tempo de uma sensualidade fenomenal. Colker sempre busca um “algo” incomum, um extra, um desafio esportivo. O público de Berlim ainda se lembra bem dela. Com “Casa” a brasileira presenteou o finado Ballet der Komischen Oper com seu maior sucesso. Os bailarinos tinham de fazer arriscadas escaladas, dançar em alturas estonteantes (NT: de dar tontura mesmo).
O fio da meada (NT: literalmente “fio vermelho”) de “Nó” é o desejo. Ele nunca consegue se satisfazer, se completar e precisa se transformar continuamente. E por isso tende para o fetiche. Daí Colker parte para movimentos que nenhum coreógrafo alemão ousaria. Balança entre o ousado e o oferecido. Quando o tema é domínio, vemos como mulheres levam seus parceiros como cãezinhos na coleira. Ou como são levadas no cabresto como um pônei.
A segunda parte acontece numa caixa transparente com degraus e vira um show de voyeurismo com nós extras e acrobáticos. Para dentro e para fora, para acima e para baixo: os de dentro se exercitam através das exigentes posições, os de fora se apertam voluptuosamente contra a vidraça. “Nó” não mostra nenhum desejo fatal, mas animados trios e fenomenais quartetos. Homem caça homem e ou mulher abraça mulher. Você pode, é a mensagem de Deborah Colker.






