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Jornal do Brasil - Caderno B 12 de JULHO de 1997



Jornal do Brasil - Caderno B
Rio de Janeiro, Brasil
12/JULHO/1997 Por Nayse Lopez

ESPETÁCULO POP COM QUALIDADE

Primeiro, ela misturou moda, samba e pas-de-deux insólitos. Depois, subindo pelas paredes, se transformou num fenômeno de comunicação que trouxe novos números de público para a dança contemporânea brasileira. O novo espetáculo da Companhia de Dança Deborah Colker tinha tudo para ser decisivo. Se fosse um fracasso, confirmaria os que dizem que seu sucesso é passageiro. Se arrancasse palmas e gritos da platéia, estava estabelecido que o público de dança no Brasil não é preconceituoso e que há espaço para vários tipos de espetáculos de dança. Felizmente, com Rota aconteceu a segunda hipótese.

O espetáculo começa brincando com o vocabulário do balé clássico e misturando-o com outro vocabulário gestual, o do cotidiano, que tanto interessa à coreógrafa. O resultado é leve e divertido, e apresenta um grande ganho, técnica e coreograficamente, em relação ao anterior Velox. Isso porque desta vez, menos preocupada em mostrar os fundamentos de sua linguagem, Deborah permite aos bailarinos uma melhor distribuição geométrica, com grupos, duos, trios e outras combinações que enriquecem a cena e o cardápio de movimentos.

Depois de um pequeno intervalo, o público que vinha no primeiro ato sendo levado num passeio musical por Schubert e Mozart cai numa colagem fim de século sampleada e cheia de referências aos sons do planeta Terra, enquanto a companhia, num cenário futurista onde escada e a magnífica roda criada por Gringo Cardia se impõem visualmente, investiga a falsamente alterada impressão de peso, leveza e velocidade. Deborah trabalha os movimentos como no espaço e espalha o desenho da coreografia pelos planos do palco. Difícil e cheia de nuanças, a coreografia Gravidade é a mais sofisticada e mais bem-sucedida de Deborah.

A roda já é, como aconteceu com a parede escalada em Velox, a estrela do espetáculo. Mas diferentemente do que acontecia no espetáculo anterior, desta vez Deborah soube não concentrar as atenções no imenso artefato de ferro, criando focos de atenção para o olhar do público em volta, na frente e atrás da roda. Esta se mostra perigosa e ameaçadora, arrancando exclamações do público nos desempenhos mais arriscados de Jefferson Antônio e Marcelo Lopes. Mesmo sendo o cenário onde acontecem as cenas de maior impacto visual e significado do espetáculo, a roda deixa na boca um gosto de mais coreografias dentro dela. No entanto, é nela que se materializam as duas imagens pelas quais somente já valeria ir assistir a Rota: a citação ao clássico corpo humano de Michelângelo e os humanos poeticamente transformados em carrinhos de roda-gigante ao som de Strauss. No fim, a sensação de ter visto um filme de ação, um bom videoclipe ou um show de rock, todas essas coisas pop, ótimas e que normalmente sofrem em nome de uma falsa erudição. Há qualidade técnica e coreográfica em Rota, mesmo que ainda haja gente relutando em reconhecer. Para Deborah, é mais um acertado passo em busca de sua linguagem. Para a dança, Rota significa uma fila interminável na porta do Teatro João Caetano que dá gosto de ver.

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