Apoio: Ministério da Cultura
<< Voltar

Jornal do Comércio 24 de MAIO de 2002



Jornal do Comércio
Porto Alegre, Brasil 24/MAIO/2002
Por Antonio Hohlfeldt

A Coreografia real-fantástica de Colker

De 1984 a este momento, a evolução de Deborah Colker, enquanto coreógrafa é notável. Não que ela tenha abandonado qualquer de suas idéias, mas aprendeu a torná-las coreografia e não apenas movimento expositivo, como lhe criticou naqueles primeiros tempos. Ao longo dos últimos anos, a criadora vem alcançando um resultado admirável, sobretudo porque a mostra permanentemente irrequieta, sempre pesquisando, propondo algo novo e inusitado, provocando a necessidade de resoluções tecnológicas para suas coreografias, mas, ao contrario do que aqui registrei sobre o ultimo trabalho do Momix, sem esquecer que toda a tecnologia deve estar a favor e a serviço do interprete humano, que é, sempre, em ultima analise, o motivo maior pelo qual vamos a um teatro, e não ao contrario. A estréia, em Porto Alegre, de 4 por 4 é outra provocação de Colker, já que na primeira parte do espetáculo temos três coreografias e na segunda duas - homenagens da artista à cidade, propiciou-nos uma noite de verdadeiro êxtase e emoção. Por outro lado, o biotipo dos bailarinos escolhidos pela coreógrafa tornam seu grupo diferente de tudo que temos no Brasil: são homens e mulheres altos, esbeltos, na melhor tradição dos manequins de desfiles de moda, que ganham visibilidade, evidenciam flexibilidade e apresentam uma beleza estranha e rara entre nós.

Na primeira parte, Cantos há uma verdadeira subversão da gravidade, devolvendo-nos aos tempos de Vulcão e Velox, mas com muito mais maturidade. A sensualidade da coreografia é simplesmente notável, e alguns dos movimentos propostos pela a coreógrafa deixam o espectador em suspense. A mesa, que se segue, quebra o ritmo do espetáculo e nos remete á reflexão e à introspecção. Saltos altíssimos, pés, nós ou sapatilhas, cada opção atende a uma determinada necessidade da coreografia e provoca determinado resultado inesperado. Enfim, Povinho é uma brincadeira engraçada, leve e inteligente, que marca a capacidade de captação da psicologia social de nosso povo.

A segunda parte, contudo, parece-me mais interessante. É verdadeiramente emocionante a abertura ao som de Mozart, com a própria Deborah Colker ao piano. É uma lição de leveza e tradição e domínio da tícnica do clássico.Enquanto isso, os bailarinos montam o cenário da coreografia final,Vasos,desafio incrível e extasiante, quando os bailarinos dançam em meio a 90 vasos (contei) que são depois suspensos (criação Gringo Cardia, inexcedível). Os resultados visuais, as sugestões em relação ao espaço/corpo do bailarino, a trilha sonora corretissima de Berna Ceppas e Kassin, a iluminação de Jorginho de Carvalho é precisa, sobretudo quando, na peça final, apresenta um branco chapado que valoriza a figura de primeiro plano - os figurinos provocativos de Yamê Reis (os da primeira obra, sensuais, os da ultima, simplesmente delirantes) - tudo, enfim, torna 4 por 4 um espetáculo maior, inesquecível e definitivo nas obras de Deborah Colker. A se ver, obrigatoriamente.

  • Digg
  • Sphinn
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Mixx
  • Google
  • TwitThis