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O Globo 28 de JUNHO de 2002



O Globo Rio de Janeiro, Brasil 28/JUNHO/2002 Por Adriana Pavlova

A UM PASSO DO RISCO; 4 POR 4, novo espetáculo de Deborah Colker aposta na concentração dos bailarinos.

Ansiosa do tipo que rói unhas até o sabugo, desta vez, Deborah Colker tem motivos de sobra para tanto frio na barriga. Se não bastasse ter que arcar com a curiosidade da turma de fãs diante do novo espetáculo de sua companhia (o primeiro depois do retumbante sucesso de “Casa”, de 1999) a coreógrafa e bailarina carioca troca de lado e, bem no meio de “4 por 4″, posta-se ao piano para atacar de concertista. No trabalho coreográfico que estréia na próxima semana no nobre palco do Teatro Municipal do Rio, dentro da séria O GLOBO em movimento, depois de ter feito uma turnê de aquecimento no sul do país, a loura vulcânica responde pela interpretação, ao vivo e sem partitura, da Sonata em l maior de Mozart.

A cena com o piano, na qual duas bailarinas cismam em driblar a gravidade dançando rapidamente nas pontas das sapatilhas, é a senha para uma nova brincadeira arriscada de Deborah: logo depois, a companhia passa a dançar bem no meio de 90 vasos de porcelana, treinando, como nunca, a concentração. Nada mau para aqueles que, de abismo em abismo, desde o início de sua companhia, em 1994, já treparam em parede de alpinismo (”Velox”), subiram em roda-gigante (”Rota”) e dependuraram-se numa construção de três andares (”Casa”).

- É a minha sina. Mesmo sem querer, de novo, a cena nos vasos consegue tirar o fôlego da platéia, como aconteceu nos outro espetáculos - diz Deborah, que desde que inventou a moda de tocar piano no palco tem estudado mais de duas horas de música por dia. - Tem gente que acha que eu fico maquinando essas invenções, mas é tudo uma coincidência. Desde o espetáculo passado, por exemplo, vinha pensando em fazer algo com a música clássica ao vivo. Decidi voltar ao meu passado de concertista, dribla o medo e ir para o palco eu mesma. A intenção é ousar, se não eu contrataria alguém para tocar no meu lugar. “4 por 4″ promete ser mesmo um espetáculo cheio de surpresas, a começar pelos cenários, que são mais do que simples enfeites. São neles (quatro instalações artísticas) em que todas as coreografias se estruturaram. Deborah foi buscar nas artes plásticas a inspiração para o seu quinto trabalho, carregando para cena obras criadas por gente de peso do cenário brasileiro contemporâneo: Cildo Meireles, o grupo Chepa Ferra, Victor Arruda e Gringo Cardia, esta último fiel escudeiro da coreógrafa. Gringo o inventor dos momentos de maior tensão do espetáculo, o fim desafiador, quando os bailarinos se misturam aos vasos e dançam com o risco iminente. Num fim apote?tico, os objetos sobem pelos ares, num jogo quase mágico de tácnica e rapidez.

- Agora estamos mexendo com outro tipo de ousadia - diz Gringo, que ajudou Deborah a construir sua parede de alpinismo, a roda-gigante e a casa. - O bacana de cada trabalho ? poder usar novos limites, ir além, por isso o diferente agora é deixar o atletismo de lado e treinar a concentração. Vejo a cena dos vasos como algo bem oriental, uma inspiração que vem da tranquilidade do oriente. Haja concentração mesmo para driblar a tensão nos pés dos bailarinos. Não foi à toa que Deborah quis fazer a turnê de aquecimento antes de desembarcar na sua cidade-sede. Em dez apresentações, claro, muitas histórias de bastidores e principalmente, muito vaso derrubado.

- Há duas pessoas de plantão nas coxias prontas para entrar em cena caso um dos vasos caia, como já aconteceu - conta Deborah. - No fim, quando cada vaso é suspenso, com a ajuda de fios, se ele estiverem centímetros fora do lugar, ficarão no chão e estragaram todo o desfecho da coreografia. Apesar do nervosismo aparente que ronda o espetáculo, o público que segue Deborah vai perceber que “4 por 4″ é, muito provavelmente, o trabalho mais lírico da coreógrafa em oito anos da companhia. Ela, por sua vez, prefere tratá-lo como um espetáculo mais suave, concordando com uma certa mudança de foco. Nunca, nesses anos todos Deborah teve tanto tempo (um ano e nove meses) para maturar um espetáculo.

- Acredito que “4 por 4″ seja um marco na minha carreira por causa da sofisticação e da simplicidade que estamos buscando em cena - diz ela, que, para a criação dos movimentos, trabalhou muito mais com a improvisação dos bailarinos. - há uma delicadeza uma introspecção, que, por exemplo, nos “Cantos”, beira a sensualidade e o erotismo.

Pois são justamente os “Cantos”, de Cildo Meireles, que servem de cenário interativo para abertura do espetáculo. É ali que casais vestidos com roupas de festas se amam e se odeiam, subindo pelas paredes das peças da obra de arte criada pelo artista na década de 60. Depois, na sequência, a mesa-objeto especialmente feito pela turma do Chelpa Ferro - Luiz Zerbini, Barrão, Sérgio Mekler e Chico Neves - desliza pelo chão, enquanto os bailarinos a exploram. Ainda na primeira parte de “4 por 4″, todos os 17 bailarinos da companhia surgem em cena, no tapete e papel de parede coloridíssimo assinado por Victor Arruda. A trilha agora é “Someday my prince will come” do desenho “Branca de Neve”, da Disney, revelando uma certa ingenuidade, misturada com movimentos do cotidiano:

- Minha ambição é trazer o mundo das artes plásticas para dança, como já fiz com esporte, parque de diversões e com a casa, porque o que me interessa é mostrar a vida contemporânea e suas misturas. Em oito anos, prêmios e sucesso internacional. Maior fenômeno da dança brasileira nos anos 90, Deborah pode se orgulhar de ter chegado rápido ao estrelato. Em oito anos de carreira, já rodou o mundo com sua companhia, ganhou prêmios como o inglês “Laurence Olivier” e conquistou palcos nobres, em Londres e Nova York. Mesmo assim, continua roendo as unhas nas vésperas para grandes estréias: - Não gosto da palavra sucesso. Prefiro dizer que meus espetáculos têm empatia e comunicação com o público.

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