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Revista Bravo 01 de JUNHO de 2000



Revista Bravo
São Paulo, Brasil
01/JUNHO/2000
Por Ana Francisca Ponzio e Regina Porto

A EXPANSÃO DA IMAGEM E DO SOM

Dança, arquitetura e móbiles sonoros interagem em Casa, coreografia de Deborah Colker que joga com a percepção e resvala na Bauhaus.

Deborah Colker d? um salto adiante com sua nova cria??o, Casa. O quarto espet?culo na curta trajet?ria de quase cinco anos da core?grafa estreou em S?o Paulo em abril e deve reiniciar temporada em setembro, no Rio de Janeiro. ? mais uma etapa de uma carreira em expans?o. Como outros core?grafos respeit?veis da atualidade, Colker parte de elementos corriqueiros do dia-a-dia, sem pretens?o de suscitar quest?es conceituais, rupturas ou teses intelectuais - o que n?o ? nenhum pecado. Com disposi??o semelhante, Twyla Tharp deu as costas ? eclos?o do p?s-modernismo dos anos 60, para marcar presen?a com um estilo aliado ? cultura pop, ao esporte e mesmo ao show biz.

No processo criativo de Casa, Colker partiu de um imperativo humano b?sico: a necessidade de criar espa?os pr?prios para viver. “At? os sem-teto demarcam territ?rios nas ruas”, observa. Outra influ?ncia foi a arquitetura da Bauhaus, cujo museu havia visitado em Weimar. Com esses elementos, e de novo associada ao cen?grafo Gringo Cardia, Colker leva ao palco um di?logo entre dan?a e arquitetura: engrenagens regem o espa?o e o gesto, s?o pontos comuns e intercambi?veis.

Toda essa arquitetura do movimento encontra correspond?ncia na arquitetura do som que ambienta Casa. O pilar musical que sustenta a constru??o de cada cena ? o pulso, r?tmico e acentuado. Aparentemente pop, a trilha ? um labirinto. S?o v?rios m?biles sonoros e musicais que se erguem - superpostos, justapostos - em absoluta independ?ncia. ? esse emaranhado de sons paralelos o que a companhia de Deborah Colker dan?a. N?o se marca apenas o primeiro plano da m?sica, mas todo o design sonoro.

Os bailarinos s?o corpos cin?ticos, envolvidos na ocupa??o de um espa?o f?sico e ac?stico que exige intelig?ncia e inven??o. Ao despojamento da arquitetura c?nica soma-se a falta de tramas e de personagens espec?ficos. Em vez de um recept?culo de hist?rias, a casa de Colker ? um espa?o neutro, quase ass?ptico, que abriga a investiga??o do movimento e suas inter-rela??es com o meio ambiente. A din?mica ? sustentada com habilidade, em ritmo constante e vivo, sem recorr?ncia ao cl?max.

A m?sica, tampouco, tem fun??o parox?stica, mesmo quando recorre a samples ou temas incidentais (Brian Eno, Kraftwerk, Beach Boys, Morriconi, Mendelssohn, …). A trilha de Berna Ceppas e Kassin, outra parceria ass?dua de Colker, faz sintonia com as tend?ncias mais atualizadas da arte ac?stica. Base r?tmica preenchida com ruidismo aleat?rio e m?sica concreta, eletroac?stica em contraponto com instant?neos e paisagens sonoras, abstra??o sugerida por sound design e audiocollage s?o, ainda, conceitos novos de sonoridade. Tais recursos, recorrentes em performances de concerto da vanguarda, s?o explorados ? exaust?o e em cada detalhe pelo virtuosismo da coreografia. E, como m?sica aplicada, facilitam a recep??o e destituem a escuta de maiores estranhamentos. Multidimensional, entr?pica, Casa brinca com a percep??o. M?sica, dan?a e arquitetura n?o comp?em um espet?culo de multim?dia (meios em a??o conjunta), mas de interm?dia (simbiose de linguagens). As representa??es das a??es cotidianas que envolvem a moradia servem de fio condutor ao jogo pl?stico que se desenrola com precis?o matem?tica. ? um audiovisual cont?nuo. A estrutura que engole e expele imagens hipnotiza o olhar; a trilha espacializada, adiciona novas “vis?es ac?sticas”, extras e imagin?rias.

Voluntariamente ou n?o, a organiza??o c?nica de Casa acaba ecoando na Bauhaus, que fazia do rigor t?cnico um de seus preceitos. “Teatro ? uma orquestra??o concentrada de som, luz, espa?o, forma e movimento”, dizia Oskar Schlemmer, um dos mestres da escola alem?.

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