The Sunday Times - Culture 16 de ABRIL de 2006
The Sunday Times - Culture
Londres, Reino Unido
16/ABRIL/2006
Por Clifford Bishop
OS LAÇOS QUE UNEM
O bondage pode parecer um interesse improv?vel para uma core?grafa ? amarrar um dan?arino parece fazer tanto sentido quanto colocar luvas num pianista. Na verdade, no final das contas, fica perfeito. O bondage Japon?s tradicional, o Shibari, pode ser visto como uma forma de esculpir o corpo e a mente como um bonsai humano ? e qual core?grafo n?o cobi?a, mesmo que secretamente, este tipo de poder? A brasileira Deborah Colker, cujo ?ltimo trabalho a vir ? Inglaterra, ?N??, apresenta uma teia de aranha de corpos amarrados e suspensos, diz, ?? interessante lidar com o bondage na arte. Fala do controle ? do prazer, da dor ? e toda arte ? muito ligada ao controle. A dan?a, especialmente, lida com os mesmos controles: do movimento, da t?cnica, da respira??o. As pessoas podem achar isto perverso, mas h? um claro contrato entre os que ir?o dominar e ser os que ir?o ser dominados. Isso n?o ? pervers?o. Pervers?o ? fingir que voc?s s?o um casal de iguais, quando na verdade uma pessoa tem todo o poder, e provavelmente toda a felicidade.?
No mundo dos aficionados por bondage da vida real, dominadores e submissos raramente trocam de lugar, e ambos poderiam at? ficariam horrorizados se voc? sugerisse que o que fazem tem por base apenas a dor. Apesar de todo a conversa mole sobre a ?experimenta??o? sexual, os fetichistas geralmente sabem o que querem. De certa forma, s?o o triunfo encarnado do estilo sobre a moda.
Eles certamente t?m forte apelo sobre a moderna, estilosa e sexy Colker. ?Aquele mundo ? excitante porque ? t?o inteligente, a est?tica ? t?o precisa. Quando eu fui a clubes de fetiche em Hamburgo, o que mais amei foi que conseguiam fazer aquelas coisas com tamanha intensidade, mas com tanto estilo, t?o cool. N?o ? uma coisa do cora??o, ? mental, e eu gosto disso porque a minha arte tamb?m ? cool, estilosa e cerebral.? Ela diz isto, como tudo o mais, com convic??o, mas cool n?o ? bem a primeira palavra que os comunicadores evocam ao descrever seu trabalho. Muito pelo contrario. As dan?as da Colker s?o renomadas pelos perigos que seus dan?arinos t?m que enfrentar e pelo erotismo atl?tico e blas? que eles exalam ao os enfrentarem.
Ela formou a Companhia de Dan?a Deborah Colker em 1994, ap?s um in?cio de vida dividido entre os estudos de piano, aulas de bal?, jazz e sapateado, ser diretora de marca??o no teatro brasileiro, se formar em psicologia e jogar v?lei pela sele??o municipal do Rio. Seu primeiro trabalho, ?Vulc?o?, comentou a dedica??o quase profissional do Carioca ao sentir-se bem e aparentar-se melhor ainda. Seu segundo, ?Velox?, viu seus dan?arinos subindo pelas paredes de alpinismo. Para todos N?s que achamos que a bunda da brasileira, por si s?, justifica os 5 milh?es de anos de evolu??o que nossos ancestrais levaram aprendendo a andar de p?, temos aqui uma obra-prima.
Apesar de toda sua corporalidade suada, por?m, as dan?as da Colker sustentam sua reivindica??o de ser uma core?grafa cerebral. Quanto mais forte o conceito por tr?s de um espet?culo, mais rico o movimento que ela cria. Em ?N??, seu tema ? o comercio do desejo e ela, obviamente, curtiu a pesquisa tanto quanto a encena??o. Na casa dela, no Rio, um professor de filosofia foi convidado para dar palestras para os dan?arinos sobre tudo, desde a pederastia grega, at? a ?vontade de pot?ncia? do Nietzsche. E para as aulas pr?ticas, enquanto encenava em Hamburgo, a Colker organizou um workshop com o mundialmente famoso mestre do bondage, Matthias Grimme.
Apesar de autor dos livros O Manual do Bondage e O Manual do Sadomasoquismo, Grimme ? um s?dico bonzinho e preocupado. Num an?ncio para uma de suas aulas de bondage, ele avisa: ?use roupas confort?veis? . Quando a Colker o disse que ela estava interessada na parte de domina??o, mas n?o da dor, ele concordou na hora. ?Pessoas diferentes tiram coisas diferentes da experi?ncia,? ele explica. ?Uma pessoa passiva pode simplesmente querer se sentir estar bem segura, como numa rede de dormir. Outra pode curtir o padr?o de marcas que cordas apertadas fazem em sua pele. Eu sempre busco c?mplices, n?o v?timas.?
?O poder est? sempre com a pessoa que faz a escolha?, diz Colker. Onde houver desconforto em ?N??, ele ? mostrado com auto-entrega proposital e, neste sentido, no final das contas, confere poder ? mesmo quando a Thalyta Oliveira, com seus olhos como os nas pinturas do El Greco, ? pendurada num mart?rio contorcido, ou a est?ica Ol?via Secchin se permite ser vendada com a ?ltima volta de um fio que a enrolou toda como a um presente. Dezenas de cordas, variando de espessura desde cord?es at? amarras de navio, ficam penduradas por todo o palco, inicialmente num feixe imitando a copa de uma ?rvore, mas gradualmente desenrolando numa selva de cip?s.
- As cordas vieram antes do conceito de bondage, diz Colker. ?Eu estava simplesmente fascinada pelo movimento delas.? H? ainda uma cachoeira de cabelo, longo como o da Rapunzel, para os dan?arinos se banharem, acariciarem ou esconderem dentro. Colker queria que esta parte ficasse ?primitiva e at?vica?, e uma estranha inoc?ncia emana dela. ? assim que L?cifer teria feito seu ?den.
A segunda metade ? para ser mais dura, mais urbana. Um cubo gigante, aberto em cima, de Perspex serve como vitrine de inferninho, aqu?rio de nado sincronizado e arena para jogos com o corpo humano. Acima de tudo, por?m, ? um vazio
reenchido pelo fetiche ? um espa?o que fica insuportavelmente fascinante para aqueles do lado de fora, proibidos de entrar. Colker lembra de um das palestras que levou a ?N??: - Est?vamos falando sobre a felicidade, e eu disse que n?o era uma condi??o humana. Temos apenas momentos felizes. Na nossa Companhia, temos dan?arinos desde os 18 at? os ? bem, eu estou nos meus 40 e poucos. Uma veio e disse, chorando, ?D?bora, tenho que lhe contar, eu estou feliz?. Eu pensei, vamos conversar de novo ano que vem. Isto ? s? o come?o, meu bem.






