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The Washington Post 11 de OUTUBRO de 2003



The Washington Post
Washington,DC, EUA 11/OUTUBRO/2003
Por Sarah Kaufman

A Trupe de Colker arrasa em “4 Por 4″

“Meus bailarinos”, confessa a coreógrafa Deborah Colker depois da performance de sua Cia na quinta-feira, às vezes, acho que eles querem me matar!

A pequena brasileira estava falando sobre a última parte de seu ardente, magnificamente dançado “4 Por 4″, espetáculo em que o palco do Teatro Eisenhower apresenta-se repleto de fileiras de vasos de porcelana. Havia pouco espaço no chão entre eles , talvez menos de 1 metro circundando cada um. Imagine-se dançando entre um cenário de pinos de boliche e você vai captar a idéia.

Ainda assim, os bailarinos surpreendentemente leves conseguiam girar, pular, rolar, deslizar de barriga, levantar e atirar uns aos outros naquele espaço lotado, sem que nenhum vaso balançasse.

Aquele pensamento assassino que eles possam ter tido ficou muito bem escondido.

De fato, eles fizeram tudo parecer extremamente fácil, como se uma brisa os tivesse levado através de um campo minado de vasos de porcelana, com a mesma facilidade com que desceriam uma rua.

Podemos admitir, que aguardávamos que a Companhia de Dança Deborah Colker fosse oferecer a serena entrega do impossível. Há dois anos, Deborah Colker eletrizou o público com “Casa”, fazendo sua estréia em Washington com a obra que colocou seus movimentos arrebatadores confinados em uma estrutura de vários andares que encheu o palco. Naquela época, a influência da arquitetura no movimento era seu foco. Com “4 Por 4″, Deborah quis algo diferente, como contou na palestra pós-performance, que foi tão divertida quanto o espetáculo em si. “Eu quis fazer algo não tão limpo, usando pintura e …um pouco mais sujo”. O resultado é uma obra que varia da precisão confinada e encapsulada até uma tempestade que enche o palco, revirando e girando com uma dança carregada de efeitos atléticos, pontuada por momentos de inacreditável delicadeza.

A obra atual está dividida em cinco partes; o quatro do título se refere ao número de artistas plásticos que Deborah convidou para criar os cenários. Na primeira parte, “Cantos”, Cildo Meireles criou seis estruturas de dois lados: cantos altos, estreitos e independentes, cada um deles ocupado por um bailarino. Enquanto um ritmo sintetizado com subtons de jazz ressoa dos alto-falantes, os bailarinos sobem, penduram-se caem ao chão e grudam-se nass paredes de inúmeros jeitos criativos, contra, ao redor e em cima dos seus cantinhos finos. Mulheres e homens sobem e descem com uma leveza de aranha, apesar de a força muscular e a exata precisão necessária para os seus feitos atléticos serem enormes.

“Mesa” é mais tranquilo, mas não menos curioso. Aqui, um tipo de maca metálica motorizada - obra do escultor Chelpa Ferro - atravessa o palco de uma forma extremamente lenta, carregando os bailarinos casualmente posicionados. Na verdade a superfície da mesa é uma esteira, permitindo que os bailarinos fiquem parados e se movam ao mesmo tempo, proporcionando poses estéticas uma sensação agradável de fluxo.

“Povinho” deve ser o elemento sujo sobre o qual Deborah estava falando. Essa parte tem um sentimento brincalhão de um desenho animado. Apimentado, gestos sexuais espalhados pelo telão de fundo, uma pintura de cores primárias de Victor Arruda. Os bailarinos brincam como adolescentes hiper ativos carregados de hormônios. Quer dizer, adolescentes bonzinhos carregados de hormônios. Há uma sensação de inquietação no telão, mas a atuação dos bailarinos demonstra uma curiosidade inocente. Uns enfiam os dedos nas calças dos outros e se cheiram como macacos. É a única espiada para algo parecido com a interação humana que Deborah nos dá, ainda que de grande forma. E a mensagem parece ser: abrace e aceite, mesmo as partes não tão limpas.

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