Valor 15 de MAIO de 2002
Valor São Paulo, Brasil 15/MAIO/2002 Por Ana Francisca Ponzio
DEBORAH COLKER TRAZ SEUS BAILARINOS DE VOLTA AO CHÃO
O novo espetáculo de Deborah Colker 4 x 4, que estréia sexta-feira no teatro OSPA de Porto Alegre, é a primeira criação da coreógrafa carioca desde casa, de 1999. Em constante turnê pelo Brasil e pelo mundo, o grupo de Colker ganhou evidência especial nos últimos tempos por ter conquistado em 2001 o prestigioso prêmio Laurence Olivier, espécie de Oscar britânico das artes cênicas.
Por causa da atuação intensa e também pela elaboração que seus espetáculos exigem, Deborah vem prolongando seus processos de criação. “Desde fevereiro quando voltamos de uma temporada na Nova Zelândia, estou trancada em estúdio para me dedicar exclusivamente à produção de 4 x 4″, diz a coreógrafa. Depois de Porto Alegre, Colker segue com o espetáculo para Curitiba (dias 24 e 25 no Teatro Guaira). Em Julho chega ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro (4 a 7) e no teatro Alfa de São Paulo (10 a 14), no segundo semestre, as turnês prosseguem na Europa e Asia, com temporadas na Irlanda, Macau, Hong Kong, Portugal, Alemanha e Londres, no Barbican Theatre.
Segundo Deborah, “4×4″ introduz em seu repertório uma compreensão diferente do espaço. Até então, as arquiteturas coreográficas de seus espetáculos colocaram em evidência os planos aéreos, que desafiaram o elenco a se mover na parede de alpinismo de “Velox”, na roda- gigante de “Rota” e nos andares sobrepostos de “Casa”. Na nova criação, Deborah faz com que os bailarinos desçam ao chão para nele buscar novas possibilidades. Para Tanto, ela introduz o elenco em quatro ambientes diversos, delimitados por obras de artistas plásticos especialmente convidados. O resultado é um espetáculo que articula, por meio de dança, os universos distintos de Cildo Meireles, do grupo Chepa Ferro, de Victor Arruda e Gringo Cardia.
“Em 4×4 também me coloco no papel de uma curadora, que apresenta para o público uma nova maneira de apreciar uma exposição de artes visuais”, diz Deborah. De Cildo Meireles, Deborah trouxe para “4×4″ o conjunto de peças denominado “Espaços Virtuais: Cantos”. Feitas em madeiras, as estruturas em relevo de Meireles sugerem paredes em cujos ângulos o elenco concentra seus movimentos. “Para mim os “Cantos” são quase datados porque foram experiências formais importantes no final da década de 60, quando eles promoveram uma passagem do meu trabalho gráfico para aquele fora do plano, que eu desenvolvi nos anos posteriores”, diz Meireles, acrescentando que, agora, em interação com a coreografia de Colker, a obra adquire novos sentidos. Na cena seguinte, 4×4 exalta o envolvimento lúdico criado pela mesa móvel concebida pelo Chelpa Ferro. Com uma engrenagem que lhe permite emitir a música do espetáculo, esse objeto cênico estimula a experimentação. “Nesse quadro a idéia é de mexer com o tempo, como se a movimentação estivesse passando há muitos anos e continuasse acontecendo por outros milhões de anos”, comenta Deborah.
“Povinho”, que identifica o terceiro quadro do espetáculo, é o único que conta com um suporte aparentemente convencional das artes plásticas: o quadro pintado, cuja moldura, entretanto, é o linóleo que recobre o palco. “Trata-se de uma composição figurativa que procura não ilustrar, mas captar o espírito da coreografia”, diz o autor da “tela para ser pisada”, Victor Arruda.
Coreograficamente, Deborah volta-se neste quadro para uma referência recorrente em seus espetáculos: o gestual cotidiano. Só que, desta vez, ela se detém na expressão do erotismo, num limiar que beira o escatológico. “O elenco se porta como pessoas que estão descobrindo o corpo e todos os seus buracos. Sem preconceitos e sem vulgaridades, tentei mexer com que há de secreto nos gestos do dia-a-dia”, ela diz.
Entre as novidades que Deborah procurou introduzir em “4×4″ está o breve recital de piano, protagonizado por ela na cena que anteceda o encerramento do espetáculo. Interpretando um trecho de uma sonata de Mozart, a coreógrafa surge no palco acompanhando uma dança denominada “As Meninas”. Em sapatilha de pontas (até então inéditas nas produções de Deborah), três intérpretes estabelecem um diálogo ente à técnica clássica e a linguagem contemporânea.
Enquanto esse trio conexões inclusive com bailarinas pintadas por Degas, o Resto do elenco já está em cena colocando os 90 vasos que compõem a instalação concebida por Gringo Cardia e que marca a parte final de 4×4. “Eu queria um ambiente que exigisse dos bailarinos uma maneira cuidadosa de lidar com o chão, que nos desafiasse a buscar quase uma maneira nova de dançar”, afirma Deborah.
Preenchendo quase inteiramente o palco, os vasos de resina projetados por Cardia transmitem a leveza das porcelanas chinesas. Tal ambiente “obrigou” Deborah e seu elenco a enveredar por um caminho quase inverso ao que vinha sendo explorado pelo grupo até agora. “Os vasos de Cardia nos conduziram para uma concentração oriental, onde qualquer excesso de força prejudicaria o ambiente. Com isso, atingimos uma delicadeza em um grau de interiozação inéditos em nossos trabalhos”.






