WN/Braunschweiger Zeitung 06 de MAIO de 2005
WN/Braunschweiger Zeitung
Wolfsburg, Alemanha
06/MAIO/2005
Por Andreas Berger
MOVIMENTOS ESTRÉIA MUNDIAL NÓ
A usina de força na cidade automobilística de Wolfsburg é novamente local de Festival. Companhias de dança internacionais mostram em Movimentos suas mais recentes obras.
Ontem foi a estréia mundial de “Nó” da Cia. De Dança Deborah Colker.
“Nós estamos sempre respirando desejo”
Entrevista com a coreógrafa Deborah Colker
Em parceria com Autostadt e a Companhia de Dança Deborah Colker do Rio de Janeiro nasceu o espetáculo “Nó”, para o Festival de Dança Movimentos de Wolfsburg. Antes da estréia mundial de ontem, nosso redator Andreas Berger conversou com a coreógrafa Deborah Colker.
Nó. O título é base para uma composição abstrata ou há uma ação concreta?
Minha obra trata de tramas de relacionamento, de laços, domínio e submissão. Um nó é um movimento, pois para isso primeiro precisamos atar, unir outras partes. Gosto disso no título. Apesar de não contarmos nenhuma história, as cenas não são abstratas, pois podemos vislumbrar ações e constelações muito concretas por trás delas.
Você usa por exemplo cordas verticais, mas também uma fita vermelha, com a qual os bailarinos se enrolam em sentido horizontal,. Como vocês ensaiam?
Ensaiamos de maneira bem clássica. Mas por exemplo, tivemos aulas de nós por dois meses com um marinheiro. Isso é importante, para que os bailarinos não se estrangulem de verdade. Tudo depende da concentração. Usamos também experiências com amarras da área erótica. Ali se obtém, através de cordas, sensações rigidamente controladas de dor e desejo. Isso pode ser transposto para todos os relacionamentos. Escolhemos constantemente domínio ou submissão. E os papéis podem trocar.
Muitas vezes os desejos subconscientes são transpostos para objetos, fetiches. As cordas em sua coreografia remetem a isso.
A caixa transparente na segunda parte também. Podemos ver o objeto desejado, mas não tocá-lo. Esse voyeurismo é típico para nosso mundo, Para o bailarino o corpo é seu fetiche, cada parte do corpo é atentamente observada, cuidada, treinada.
Quanta inspiração para suas coreografias vem de sua própria experiência?
Meus sentimentos e experiências pessoais são sempre parte importante do meu trabalho. Assim posso me exprimir com mais sinceridade. Todas as questões de relacionamentos e relações de poder me fascinam. Respiramos constantemente desejos, e é bom estar consciente disso, para poder se libertar. Sempre estive atenta a quais metáforas e substituições eu encontro para meus anseios.
Sobre a pessoa:
Deborah Colker nasceu no Brasil. Estudou psicologia, jogou vôlei, e apresentou-se diversas vezes como pianista de concerto. Sempre dançou, e após uma crise pessoal tornou a dança em toda a sua forma de expressão. Em 1980 entrou no Grupo Coringa e criou suas primeiras coreografias. Encenou shows de música, videoclipes, e o desfile de uma escola de samba em 2004. Desde 1994 dirige sua própria companhia.
Enrolações do Desejo
Estréia mundial de “Nó” em Wolfsburg
Uma árvore de cordas, que se abre para formar uma floresta inteira: entre as cordas balançantes os bailarinos se enrolam em novelos de gente. Muitas vezes um parceiro segura os fios na mão, nos quais outros fazem parada de mão ou engatinham. E a maneira como uma bailarina se exercita na corda vertical, os membros enrolando-se sempre de novas maneiras na corda, ou outros se seguram nas cordas, faz lembrar de jogos de amarrar, de prender.
Na estréia mundial da coreografia de Deborah Colker ontem, porém, isso tudo é tão estético, que não se invoca de maneira voyeurística o inferno de desejos obscuros. Pra isso falta aquele clichê todo do couro. As cordas balançantes não se transformam em chicotes. Pelo contrário, vemos uma ritualização, um jogo proposital com os desejos. É mais uma demonstração de confiança, quando um bailarino deixa que outro, na corda, o baixe até a posição horizontal. Se o outro soltasse, o primeiro daria com a cara no chão.
Na segunda parte uma bailarina se joga da estrutura, para os braços de outro bailarino. Eles se movem na caixa de vidro. Se acotovelam contra a parede, não deixam o outro escapar. Junto com isso movimentos de vaudeville. Exibidos em sua beleza, eles satisfazem o desejo do público, como na televisão. Os relacionamentos como show de luta.
A Companhia de Dança se mostra muito concentrada. Às vezes a movimentação de dança se interrompe um pouco, em relação aos números nas cordas verticais. O simbolismo “corda e nó” é muito próximo ao eterno tema dos relacionamentos, mas as idéias coreográficas que Colker tira daí são múltiplas, e nos hipnotizam. Aí o espectador também se sente atraído e aplaude com liberdade.






