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O Estado de São Paulo 01 de ABRIL de 1996



O Estado de São Paulo
São Paulo, Brasil
01/ABRIL/1996
Por Helena Katz

‘VELOX’ - MISTÉRIO DE COMUNICAÇÃO

Não use o nome como bula. Velox, na verdade, é uma armadilha. Não trata da questão da velocidade e, depois de assisti-lo, você vai demorar um certo tempo para montar a equação do seu sucesso. Velox pode até descer rapidinho, olhos abaixo, mas seus mistérios ficam.

Mistério-chefe: como explicar o fenômeno de comunicação de massa em que se transformou? Velox fica em cartaz em um teatro no centro do Rio de Janeiro, o Carlos Gomes, em plena Praça Tiradentes, inteiramente fora do círculo habitual, e havia tumulto para conseguir ingresso, sempre. Voltou lá mesmo, para outra temporada, e segundas temporadas, quase sempre, não pareiam com as primeiras. A de Velox estourou a bilheteria de novo. Marcou um respeitável dois a zero.

Mistério-subchefe: como explicar a cumplicidade que consegue com uma platéia civil, que nada tem a ver com os graduados em teatro? As explicações não podem ser sacadas das contas das teorias da dança. É fenômeno de comunicação e pede por luz puxada das teorias da informação. Deborah Colker, no seu segundo trabalho, leva caravelas para terra firme: descobre o canal que começa na praia e acaba nas houses.

Com pontaria inédita, a arqueira Colker reúne, na mesma horda, sujeitos que, de manhã, desfilam os corpos da malhação e aqueles que, a noite, põem os esqueletos para dançar. No meio do caminho, dá uma paradinha para a turma que joga no computador, a tarde, poder aderir a banda que passa. Deborah Colker aplica a estratégia copy and paste em todos eles, que lhe devolvem, sorridentes, o agradecimento pela oportunidade de se sentirem parte. É o seu corpo-em-futuro que lá está, sem dúvida. É como se Velox se tornasse um pouquinho cada um da geração saúde.

Deborah Colker faz dessa tribo diversificada autênticos ex-theaterless. Depois de Velox, ninguém mais tem medo de Virgínia Wolf. E aí, justamente quando chega tal momento, tudo se complica. Converter com Velox quem nunca vai ao teatro a uma missão muito mais complicada do que apenas dar batismo a essas novas almas.

A água benta está aí, não há como não ver. Quanto é efetivação do batismo, essa já é uma outra história. Nesse exato momento, Deborah já tem uma multidão esperando, do lado de fora do palco. Cúmplices debutantes, com a força e o frescor que só um ex-theaterless pode ter.

Mesmo que Velox seja apenas a carruagem de Cinderela de todos eles, quando cada qual voltar a ser abóbora, será uma abóbora diferenciada. Para quem começou a carreira de diretora de companhia e coreógrafa no ano passado e conseguiu isso no seu segundo trabalho, o feito é, no mínimo, surpreendente.

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