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O Estado de São Paulo 27 de NOVEMBRO de 1995



O Estado de São Paulo
São Paulo, Brasil
27/NOVEMBRO/1995
Por Helena Katz

DEIXE PRECONCEITOS DO LADO DE FORA

O atual fen?meno de comunica??o na dan?a ? para jovens da era da linguagem visual Rio- Velox ? um fen?meno da comunica??o. O espet?culo que tinha tudo para dar errado tornou-se o maior sucesso da temporada teatral do Rio. Mas quem consegue assistir descobre o porqu? dessa aclama??o.

Recomenda??o n?mero um: deixe aqueles preconceitos que identificam as gera??es mais jovens como hemipl?gicos intelectuais no sagu?o do teatro. Quem s? v? MTV, investe horas di?rias em frente de CD-ROMs e coleciona Spawn, Wild Cats e Gen 13 tamb?m tem direito ao prazer que s? um espet?culo ao vivo d?. Velox faz isso: conversa com aqueles que l?em o mundo por meio de imagens digitalizadas, ou seja, com os ?rg?os das artes c?nicas.

O staccato das s?ries consagradas nos videogames, o tipo de seq??ncia entre os acontecimentos (algo resulta em algo) e, especialmente, o modo de representa??o do movimento como arma poderosa: disso se alimenta Velox. Todo sujeito que faz aula de qualquer t?cnica corporal, que pratica ou curte qualquer esporte, e todos os que gostam de dan?ar sentem um afinidade instant?nea. Esse aspecto do caldo contempor?neo urbano est? l?, em puro estado de processo.

Recomenda??o n?mero dois: tentar pensar como um term?metro, capaz de identificar as zonas mais "quentes" do espet?culo, para descobrir, por meio delas para onde se dirige a capacidade coreogr?fica de Deborah Colker. Um exerc?cio compensador, que revela em dois momentos o esfor?o da assinatura de uma core?grafa: na curta seq??ncia inicial (a mais precisa da obra) e em Alpinismo.

Nos primeiros momentos de Mec?nica, h? uma ?nica estrutura que se forma j? na cuidad?ssima trilha sonora (?timas sampleadas de Berna Ceppas, S?rgio Mekler, Kassin e Leandro Leal). ? quando a colagem, as sobreposi??es e as mixagens se esfuma?am e d?o contorno ao que se chama de composi??o musical - que n?o ? soma nem s?ntese. ? m?sica. A coreografia segue por a?, tamb?m ambiciona desfazer as suas cita??es como refer?ncias. A pena ? que isso n?o se sustenta sempre, permitindo que o endere?o original de muitos elementos ainda permane?a demasiado evidente. Esse ? o pecado no qual Deborah Colker ? recorrente.

Em Alpinismo, tudo melhora de novo. Uma vez que a companhia se movimenta pregando-se numa parede todo o tempo, na vertical e n?o no solo, o uso da gravidade como marca??o r?tmica - um tra?o ainda excessivo - ficou invi?vel. E o impedimento acabou for?ando o surgimento de novas din?micas. O mais curioso nelas ? o tempero l?rico que pontua, aqui e ali, algumas das suas combina??es.

A ambienta??o de Gringo Cardia cria, de fato, o espa?o preciso para Velox, com exce??o da realiza??o do desenho da quadra da ?ltima parte, Esportes. O deslocamento para a verticalidade (que dialoga com a parede do alpinismo) abre poeticamente o campo, mas a sua taxa de obviedade traz a perda de sua for?a simb?lica. No papel de bailarinos, a companhia apresenta nove m?quinas de precis?o. Todos realmente excelentes, com brilhos extras de Luciana Brites, Dani Amorim e Tatiana France. Para uma baby companhia como essa (afinal, trata-se de um segundo espet?culo) e, tomando-se como refer?ncia o seu primeiro trabalho, o equivocado Vulc?o, n?o h? como n?o reconhecer: ok, Deborah, voc? cresceu.

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