Revista Veja SP - Dan 10 de ABRIL de 1996
Revista Veja SP - Dan
S?o Paulo, Brasil
10/ABRIL/1996
Por Alfredo Ribeiro
COMO UM GOL DE PLACA
A Companhia de Dan?a Deborah Colker reveste de "moderno" a emo??o e a simplicidade dos esportes.
Espet?culo de dan?a moderna no Brasil costuma ser uma confer?ncia de chatos em torno de um palco. Os que usam sapatilhas batem cabe?a e os pagantes de coturnos batem palmas. ? contagiante. Quanto mais uns batem cabe?a em cena aberta, mais os outros batem palmas na plat?ia. S?o todos contempor?neos, sabe como ? que ?. A core?grafa carioca Deborah Colker, moderna como ela s?, tinha tudo para entrar nessa dan?a de culto ? depress?o, mas, surpreendentemente, buscou inspira??o na vitalidade alegre do esporte para marcar os movimentos de sua companhia de doze bailarinos no espet?culo Velox, que nesta semana estr?ia no Teatro S?rgio Cardoso, em S?o Paulo, para uma temporada de tr?s semanas. A trupe retoma uma temporada de 51 apresenta??es em onze capitais brasileiras, com m?dia de p?blico de 940 espectadores por sess?o - quase 50.000 pessoas no total. - e a primazia de n?o ter criado nenhuma pol?mica no ?ltimo ver?o do Rio de Janeiro. Foi uma rara unanimidade entre os cariocas, inclu?dos a? os moderninhos do balne?rio.
"A receita ? simples. Sempre fiquei fascinada vendo na televis?o os jogos de basquete da NBA", explica Deborah Colker, numa linguagem que todo mundo entende. "Aqueles homens se esticando para fazer uma cesta maravilhosa, aquilo - em como as grandes partidas de v?lei e de futebol - ? a maior coreografia da Terra, hipnotiza qualquer pessoa." Como bailarinos s?o como atletas que treinam para se superar, aprimorar movimentos, bater seus pr?prios recordes, Deborah decidiu transformar o esporte em dan?a e vice-versa. Coreografa equipes entrando em campo para vencer, o corpo em estado de vibra??o, tens?o, aten??o, momentos de alegria e de tristeza. As modalidades de esporte se alternam em ritmo alucinante. Consegue um resultado perfeito, de impressionante precis?o, no bal? dos alpinistas, para o qual criou um palco vertical de 6,60 metros de altura, onde os dan?arinos desafiam as leis da gravidade. A queda parece iminente, o p?blico n?o respira.
Copa da It?lia - ? tudo t?o bem-feito que, por vezes, depois do espet?culo, parte da plat?ia explode em patriotismo na porta do camarim, como numa vit?ria da sele??o canarinho. "Agora eu tenho mais orgulho de ser brasileira", comemorou a atriz Beatriz Segall depois de assistir a Velox no Teatro Carlos Gomes, no Rio. "Voc?s t?m a obriga??o de correr o mundo para mostrar do que n?s somos capazes", exaltou. A Companhia de Dan?a Deborah Colker apresenta-se em setembro na Bienal de Lyon, na Fran?a, festival que, al?m da dan?a, movimenta as ?reas de teatro, literatura, v?deo, m?sica e artes pl?sticas, sempre em torno de um mesmo centro de produ??o cultural, desta feita o Brasil. A viagem da companhia ? Fran?a deve render outras escalas na Europa, com um p? no Festival de Hamburgo e outro numa apresenta??o independente em Berlim, ambos os espet?culos na Alemanha.
Para atingir essa forma contagiante, Deborah Colker tirou o couro de seus bailarinos em oito meses de ensaios exaustivos. "Fui cruel. Para representar atletas, a gente for?ava demais m?sculos que os bailarinos n?o est?o acostumados a trabalhar", lembra Deborah. O fisioterapeuta Jos? Roberto Prado J?nior foi convocado para tratar dos que se machucavam. Eram seis horas di?rias de ensaio, incluindo aulas de kung-fu, bal? cl?ssico e alpinismo num pared?o de 11 metros. "Meu ?libi ? que eu fazia tudo aquilo a que submetia os bailarinos", conta. Valeu a pena. A evolu??o dos passos da companhia entre o primeiro espet?culo - Vulc?o - e a estr?ia de Velox, em outubro do ano passado, pode ser comparada ao rendimento diferenciado da Sele??o Brasileira de Futebol nas Copas do Mundo da It?lia e dos Estados Unidos.
Deborah Colker conseguiu outra vit?ria. Rompeu a barreira que a confinava na oca dos moderninhos de Ipanema. Fez um espet?culo ousado e agrad?vel at? para quem n?o gosta de dan?a. "O p?blico que nos viu pelo Brasil afora n?o se resumiu ? elite cultural. ? gente interessada em esporte, em ver alguma coisa diferente", conta a core?grafa, de 35 anos. " Me chama de moderna, mas eu n?o me preocupo com isso. Sou uma pessoa do mundo contempor?neo", diz, numa reca?da no jarg?o de sua tribo. N?o importa. Quando voltar da Bienal de Lyon, Deborah Colker come?a a trabalhar um novo espet?culo e j? arquiteta uma coreografia de simplicidade popular. Vai levar o parque de divers?es para o palco. " Quero simular uma roda-gigante, subir no teto, andar nas laterais do palco…" Est? no caminho certo.






