The Sunday Times 23 de JULHO de 2000
The Sunday Times
Londres, Inglaterra
23/JULHO/2000
Por Nadine Meisner
UMA APRESENTAÇÃO QUE PRENDE
Se algumas partes do espetáculo de Deborah Colker, para a temporada "Brazil" do Barbican, tem pouco drama, você vai perdoá-las todas quando ver o incrível final, diz Nadine Meisner.
Mix é o título do espetáculo de Deborah Colker no Barbican Theatre, para o festival Brasil: Brazil do centro, e mix é a palavra que define o currículo desta coreógrafa brasileira de 39 anos de idade. Pianista clássica, estudante de psicologia, bailarina, integrante do time de vôlei do Rio: ela fez tudo isso. Não daria para adivinhar isto a partir de suas coreografias - exceto o vôlei, porque o atletismo é a característica mais evidente de Mix. E como em seu mais recente, menos impressionante espetáculo em Londres, Rota, onde a melhor parte era o final, assim o "tchans" absoluto em Mix veio na parte final, Alpinismo. Sua coreografia é exatamente isto: uma "dança vertical" numa parede vertiginosa com pequenas projeções como suportes de mão e de pé.
A "dança vertical" não é novidade, mas nunca antes foi feita com tão espetacular bravura. Os bailarinos, o que inclui Colker, devem não apenas ser livres de acrofobia (medo mórbido de lugares elevados), como também ter a agilidade audaciosa dos acrobatas. Eles se espalham pela parede, sem a limitação da relação normal entre a anatomia humana e a gravidade. Quando eles pulam, de braços abertos, de um conjunto de agarras para o outro, eles podem ser insetos aquáticos na superfície de uma lago de jardim. Quando eles congelam numa linha de arabescos planos, eles poderiam ser um padrão de papel de parede. Quando se congregam em aprazível simetria, poderiam ser borboletas espetadas na coleção de um lepidpterologo . E quando um homem, lá em cima, faz uma "bananeira" em ângulo reto com a parede, você cruza os dedos e fecha os olhos.
Colker explora a musculosidade dos homens com feitos impossíveis, enquanto as mulheres brilham em flexíveis formas e posições. Na seção anterior, Paixão, as diferenças de gênero são menos marcantes, até permitindo uma mulher ocasionalmente levantar um homem. Uma mistura de canções de amor, do Je T’aime da dupla Gainsbourg-Birkin a Angie, dos Rolling Stones, serve de comentário aos 23 duetos, seus abraços e apoios encaixando-se entre si como peças angulares de quebra-cabeça. Um homem roda uma mulher em êxtase, até que ele abruptamente a joga fora e vai empurrar outras mulheres por aí. Um homem e uma mulher tentam desesperadamente se tocar, impedidos por seus parceiros. Colker é extraordinariamente inventiva ao criar movimentos onde o carinho se transforma em raiva, o desejo em rejeição.
As outras seções contrastantes não são tão bem sucedidas, apesar de "Desfile" ter um design impressionante, com crinolinas xadrez inspiradas em Gaultier. Cadeiras gigantes fazem os bailarinos parecerem com Alice depois de uns goles de Beba-Me, e a coreografia tem ecos de hip-hop e clubbers, bem combinados com as atrativas síncopes da percussão brasileira. Mas o precedente Máquinas se concentra em espasmos robóticos e repetições mastigadas, tediosas como uma aula de aeróbica; enquanto a segunda parte, com o tema Esportes, parece excessivamente longa até vermos o Alpinismo.
Cultura pop, dança contemporânea, esporte: tudo isto está incluído no processo de composição de Colker, que favorece leitura e acessibilidade flamejantes. E que ferramentas articuladas são os corpos dos bailarinos, expressando tudo vivamente através de movimento gráfico, incluindo o humor, como o homem cujo pescoço tem tanta flexibilidade independente, que corre o risco de escorregar tronco abaixo.
Mix, porém, parece muito episódico, faltando um ponto de ligação geral. Parte da culpa vem de sua gênese, onde extratos dos dois primeiros trabalhos de Colker - Vulcão (1994) e Velox (1995) - foram combinados para sua estréia em 1996 na Bienal de Lyon. O trabalho mais recente de Colker, Casa, aparentemente apresenta mais um cenário ambicioso, uma construção de vários níveis, onde os bailarinos representam o drama da vida doméstica. Soa mais coeso, e bastante atraente.






