4 POR 4

A dança ocupa e explora o espaço.

As artes plásticas e a dança interferem na sensação espacial das coisas.

A dança escolhe a música. As artes plásticas, o silêncio.

(Deborah Colker)

 

 

O estudo da relação movimento-espaço é uma paixão e uma constante na obra de Deborah Colker.

Depois de promover a aproximação da Dança com a Arquitetura, em Casa, espetáculo de 1999,

a coreógrafa carioca sentiu a necessidade de somar a colaboração de outros artistas a seu estudo do movimento. O impacto causado por diferentes exposições visitadas por ela entre 1998 e 2000 fez com

que as Artes Plásticas se tornassem objeto de desejo e tema mais que perfeito para dar segmento a seu processo investigativo. Afinal, como ela mesma diz, o que é a dança senão imagem em movimento?

 

Nascia assim 4 POR 4, balé em dois atos e cinco movimentos, onde conceitos como contenção, delicadeza, limitação, ousadia e transparência são explorados pelos bailarinos da Cia Deborah Colker através da interação com obras, pré-existentes e especialmente criadas, de artistas brasileiros de diferentes gerações: Cildo Meireles (Cantos), Chelpa Ferro (Mesa), Victor Arruda (Povinho) e Gringo Cardia (Vasos).

As Meninas, que abre o segundo ato e prepara, com extrema delicadeza, o clímax promovido pelo quadro final, Vasos, é a exceção que confirma a regra. Ou quase, já que mesmo não contando com a colaboração de um artista plástico, faz alusão a dois gênios da pintura: o impressionista francês Edgar Degas (1834-1917), cuja obra é notadamente marcada pela recorrência de telas que retratam meninas em aulas de balé, e o espanhol Diego Velázquez (1599-1660), de quem empresta o título. O movimento, quase um intermezzo, traz duas bailarinas dançando na ponta dos pés acompanhadas por Deborah Colker ao piano, interpretando uma sonata de Mozart (1756-1791).

 

Os 5 movimentos de 4 por 4

 

Cantos – Experiência formal importante desenvolvida no final da década de 60 por Cildo Meireles (1948), numa fase de transição do trabalho gráfico para o campo tridimensional, a série Espaços Virtuais: Cantos forma até hoje um conjunto obrigatório em qualquer retrospectiva, passada, presente ou futura, do artista. E foi na retrospectiva da obra de Cildo exibida em 2000 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro-MAM que Deborah Colker teve o primeiro contato com a série. “Fiquei encantada. E só pensava em movimento. Tinha vontade de entrar em todos os Cantos e dançar”, relata. Resultado: seis das peças criadas pelo artista entre 1967 e 1969 para a série, a partir de três planos que se encontram, figuram, imponentes

e vigorosas, no primeiro movimento de 4 por 4. “Os cantos estouram as paredes da casa com sua precisão

e seu rigor, suas cores frias e o detalhe de seus rodapés”, observa Deborah. “Nesta coreografia busquei falar das pequenas diferenças e ilusões que as formas dos Cantos criam e, também, um pouco, do imaginário de cada um sobre seu próprio canto.”

 

Mesa – Formado em 1995 pelos artistas plásticos Luiz Zerbini (1959) e Barrão (1959), o editor de imagens Sergio Mekler (1963) e o produtor musical Chico Neves (1960), o grupo Chelpa Ferro desenvolve um trabalho multimídia que se alimenta da imbricação entre as artes visuais, a música e a performance. Movida por uma admiração geracional, Deborah Colker, que sempre acompanhou de perto a produção do quarteto, lançou seus integrantes em um novo desafio: a criação de uma obra capaz de suscitar o diálogo com uma arte até então inexplorada por eles – a dança. Muitas conversas e experimentações depois, veio

à luz o objeto – misto de mesa, esteira de rolagem e aparelho de som – de dentro da qual sai a música e sobre o qual um trio de bailarinos interpreta a coreografia escrita por Colker para o segundo quadro

de 4 por 4. “A ideia é mexer com o tempo. Como se a movimentação viesse ocorrendo há muitos anos

e estivesse fadada a se repetir por mais milhões de anos”, explica.

 

Povinho – Victor Arruda (1947) já tinha posto sua arte no chão em 2000, quando criou a pintura-instalação Pintura para Ser Pisada, trabalho que ocupou a Sala 13 de Maio do Museu do Paço Imperial, no Rio de Janeiro, em 2001, e hoje pertence ao Acervo do Museu de Arte Contemporânea de Niterói. A convite de Deborah Colker o artista criou, desta vez, especialmente para 4 por 4 uma obra para ser dançada.

Sobre um painel de forte apelo erótico, de 12m x 14m, e tendo ao fundo um segundo painel de 8m X 14m, também criado para o espetáculo, os bailarinos da Cia de Dança Deborah Colker dançam ao som de Someday My Prince Will Come (tema de Branca de Neve, da Disney) a coreografia ao mesmo tempo sensual e infantil batizada por sua criadora de Povinho, em referência à simplicidade dos atos e tipos representados nas peças de Arruda. “São gestos íntimos, cotidianos: cheirar, ocupar todos os buracos

do corpo. É como se este povinho tivesse outros códigos, outros costumes. Como crianças, que descobrem seu corpo, seu sexo, com muita espontaneidade e alegria”, diverte-se.

 

As Meninas – Inspirada nas jovens alunas de balé que povoam a obra de Degas, Deborah Colker criou

o movimento de abertura do segundo ato de 4 por 4, através do qual realiza dois desejos de longa data: utilizar música ao vivo em cena aberta e lidar com a ponta dos pés. Com o título emprestado de uma obra de outro grande mestre da pintura, Velázques, em As Meninas, a coreógrafa propõe um diálogo de contrastes e complementaridade entre a dança contemporânea e o balé clássico, travado entre duas bailarinas sobre a célebre Sonata para Piano nº 11 em Lá Maior, K 331, composta pelo “gênio de Salzburg” na Paris de 1778, e interpretada, ao vivo e a cores, pela própria Deborah ao piano. O quadro evoca e revive uma tradição da Grécia Antiga – a Musiké Téchne, “A Arte das Musas”, em que dança, poesia e música constituíam uma unidade indissociável. “A menina que começa a dançar, a estudar piano. A sala de aula

da bailarina. As pontas potencializam a performance das intérpretes, trazendo ao mesmo tempo vigor e beleza ao movimento”, avalia a coreógrafa.

 

Vasos – As artes plásticas voltam a ocupar a cena no quinto e último movimento de 4 por 4. O diretor

de arte do espetáculo, Gringo Cardia, um aficionado da arte oriental, é o autor da instalação de 90 vasos de porcelana pintados à mão que compõem o espaço cenográfico por onde os bailarinos da companhia se esgueiram para dar vida Vasos. A coreografia, de alto risco, exige concentração, precisão e delicadeza, colocando em teste, uma vez mais, os limites da trupe de Colker na sua relação com o espaço, e levando

a plateia a vivenciar os píncaros de excitação e tensão que se tornaram marca registrada dos espetáculos da companhia. “Suavidade, vigor, destreza, controle, kung-fu. A arte da precisão. Dançar em meio a esses 90 vasos é uma tarefa árdua. Um desafio que busca uma nova maneira de dançar com a alma”,

sintetiza Deborah.

 

 

 

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