CRUEL

Em Cruel, criação de 2008, Deborah Colker propõe um enigma: uma série aberta de elementos narrativos que só se completa com o olhar do espectador. Corpos em movimento que exigem a decifração, um jogo entre o Acaso e a Necessidade. Histórias ordinárias, daquelas que se repetem invariavelmente na vida

das pessoas, e que envolvem amores, amantes, família, laços que atam e desatam. Histórias quase

sempre cruéis.

 

“As histórias estão ali para serem apreendidas por cada um de um modo particular”, sublinha a coreógrafa carioca, que contou com as colaborações de Fernando Muniz, no desenvolvimento de elementos narrativos, e do diretor teatral Gilberto Gawronski, na busca da expressão dramática dos movimentos.

 

Foi a partir de Nó, espetáculo que estreou na Alemanha em 2005, que Deborah sentiu necessidade

de trazer para suas criações uma presença mais forte da dramaturgia – caminho que hoje ela considera

sem volta.

 

A linguagem teatral está atrelada ao trabalho de Deborah Colker desde priscas eras. A partir de 1984, quando colaborou com Domingos de Oliveira na peça A Irresistível Aventura, estrelada por Dina Sfat,

a coreógrafa atuou como diretora de movimento em inúmeras montagens teatrais. E a ideia de lançar

mão dessa experiência na construção dos espetáculos de dança da companhia vinha sendo acalentada

há tempos por ela e João Elias, diretor executivo da cia. “Assim, para trabalhar com essas referências

do teatro, o que fizemos em Cruel, na inexistência de um libreto, foi carregar os movimentos de intenções

e sentidos”, esclarece Deborah Colker. 

 

Na construção coletiva, que durou cerca de ano e meio, outros elementos foram sendo incorporados

ao trabalho – como um texto de Fausto Fawcett e uma história escrita por Fernando Muniz. “Todas essas colaborações acabaram servindo como munição para o processo criativo, sendo absorvidas através

da dança e ajudando a costurar situações que se apresentavam”, conta Deborah. “Mas o que se verá

em cena não é novela, não é teatro. É dança”, sublinha a coreógrafa.

 

O espetáculo, de quatro movimentos, é estruturado em dois atos.

 

No primeiro movimento, em meio aos preparativos de um baile, o público é apresentado aos protagonistas das diversas situações cênicas que serão desenvolvidas no decorrer do espetáculo.

 

Em seguida, à volta de um grande lustre redondo e rendado que ocupa o centro do palco, e embalado por um mashup sonoro que vai de uma valsa de Vivaldi a um sucesso de Nelson Gonçalves, passando pela voz doce e rouca de Julie London, transcorre o grande baile, pontuado por pas-de-deuxs, movimentos líricos

e pela evocação da lembrança de romances nascidos nos grandes salões: paixão, arrebatamento, a magia do enlace amoroso...  

 

Aos poucos, pequenas alterações de clima e intensidade denunciam o curso do tempo. Toma lugar em cena, uma grande mesa móvel, de 5m de comprimento. Em torno dela se desenvolvem relações familiares, encontros e desencontros, que marcam os afetos e suas mutações.

 

A presença deste objeto, de grandes proporções, na cena evidencia uma constante no trabalho de Deborah Colker: a relação primordial entre espaço – e a interferência no espaço – e movimento. “É sempre o espaço que propõe para mim uma nova relação com os movimentos”, diz Deborah. Um palco vertical (Velox),

uma grande roda (Rota), a estrutura de uma casa tomando conta da cena (Casa) e uma centena de vasos espalhados pelo chão (4 por 4) foram algumas das apostas da coreógrafa até aqui.

 

No segundo ato de Cruel, um jogo de grandes espelhos que se movimentam empresta um tom surrealista ao espetáculo. Fragmentos de corpos perpassam as estruturas, se misturam, se confundem. Neste cenário de reflexos e luzes, cada qual parece mais só, diante das experiências acumuladas em sua história de vida. “Em frente ao espelho é só você. E sua história se reflete na sua própria imagem”, ressalta a coreógrafa, que aposta no encontro do violento com o amoroso, do cruel com o sensível, do lúdico com o trágico, do amor com a dor. 

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