MIX

De um olhar europeu sobre a dança contemporânea brasi­leira, nasceu Mix, espetáculo que promove a fusão de Vulcão e Velox, as duas primeiras criações da Companhia de Dança Deborah Colker. Em meio ao processo de curadoria da 6ª edição da Bienal da Dança de Lyon, dedicada ao Brasil, o francês Guy Darmet, diretor do evento, foi conferir os dois balés, encantou-se com ambos, e propôs à Deborah Colker que preparasse, espe­cialmente para o festival, uma espécie de medley deles.

 

Mixados com maestria pela coreógrafa carioca e sua afiada trupe de bailarinos, os sentimentos em estado bruto e de ebulição de Paixão, a ironia e a elegância de Desfile, as re­flexões em torno da física do movimento, esbo­çadas em Máqui­nas e desenvolvidas em Mecânica e Sonar, a babel de gestos e movimentos instau­rada em Coti­diano, e o eletrizante balé verticalizado de Al­pinismo culminaram em um ter­ceiro espetáculo, que se tornaria um dos clássicos da companhia e alavancaria sua projeção no cenário internacional.

 

Com a estreia mundial consagradora de Mix no Thêatre National Populaire de Lyon em 16 de setembro de 1996, a Cia Deborah Colker inaugurou um calendário internacional que, em quatro anos, havia cruzado três continentes, percorrendo 12 cidades de oito países, entre Europa, América do Sul, América do Norte e Ásia. Em 2001, cinco anos depois de subir à cena pela primeira vez em Lyon, Mix, que vinha de uma temporada londrina de grande repercussão no Barbican Theatre no ano anterior, tinha sua excelência reconhecida de forma definitiva, brindando sua criadora com uma honraria jamais concedida a um artista brasileiro: o prêmio Laurence Olivier, um dos mais prestigiosos das Artes Cênicas no continente europeu, na categoria "Outstanding Achievement in Dance" (realização mais notável em dança).

 

 

Mix, quadro a quadro

 

Máquinas (espetáculo de origem: Vulcão) – O corpo humano, a mais bem ar­quitetada das criações da Natureza, explora seus limites físicos. Precisão e sin­cronia são as palavras de ordem. Um casal nu emoldura a cena, em ampliações assépticas e totêmicas. O som é techno, industrial, e se mistura a ruídos e mi­crodistorções. A luz sugere a penetração de raios solares pelo telhado de vidro de uma grande fábrica dos anos 30, recriando a atmosfera de clássicos do ci­nema como Metrópolis e Tempos Modernos.

 

Desfile (espetáculo de origem: Vulcão) – Uma intrigante coleção de gestos e movimentos. Em ritmo de samba, maxixe, marcha-rancho, bossa-nova, mara­catu ou baião, bailarinos e bailarinas disputam, entre flashes e cotoveladas, a primazia na passarela. Ao fundo, três cadeiras hiperdimensionadas brincam com a ideia da (des)proporção e colocam por terra a noção da medida exata.

 

Paixão (espetáculo de origem: Vulcão) – O sublime e o patético de um corpo em pleno transe amoroso. Aquele momento único em que todos os limites são abolidos. Frequência cardíaca fora de controle. Temperatura alta e impulsividade abso­luta no ar, podendo ocorrer deslocamentos violentos, com eventuais instantes de ternura. Ao som de uma colagem frenética de megahits românticos, uma ciranda de 23 pas-de-deux golpeia a cena. Em filigranas de mo­vimentos, programadas em computador, a tarde cai, lenta e inapelavelmente sobre o palco.

 

Mecânica (espetáculo de origem: Velox) – Peso, equilíbrio, oposição, geometria. Traduzidas em linguagem coreográfica, as forças centrífuga e centrípeta, princípios básicos do movi­mento, se materializam no espaço cênico. Seis pás giratórias de 3m de diâmetro, po­si­cionadas na vertical, remetem à passagem do tempo e às engrenagens da me­cânica do movimento.

 

Cotidiano (espetáculo de origem: Velox) – Um turbilhão de gestos e movimentos, repentinos e repeti­tivos, se interpõe na cena. Ordinários, corriqueiros, cotidianos, carregados de inten­ção mas recortados de seus contextos, eles evocam o drama, a tragédia, a comédia, o lúdico, o patético, numa babel de diálogos mudos que parece dar vida e movimento a um quadro expressionista. As pás ainda giram, nervosas.

Estridente e turbulento, o som mistura ruídos de rua, chiados de rádio, sirenes, diálogos desconexos.

 

Sonar (espetáculo de origem: Velox) – A lenta desaceleração dos gigantescos ventilado­res-moinhos dá o tom do singelo e breve quarteto que se segue: uma espécie de rito de passagem entre Cotidiano e Alpinismo. Têm início aqui as primeiras investi­gações em torno de um novo eixo. Enquanto as bailarinas se mantêm em estado de lenta flutuação, movimentos ágeis, viris e, por vezes, bruscos sublinham a alternância do elenco masculino entre suspensão e queda. Um som marinho e con­tínuo trespassa a cena.

 

Alpinismo (espetáculo de origem: Velox) – A busca do equilíbrio absoluto, obsessão de todo bailarino, é levada ao paroxismo no quadro final de Mix. O passé relevé, a pirueta arabesque com relevé, o fouetté dão lugar aqui a um impressionante balé aéreo que deixa a plateia com a respiração suspensa. O chão verticaliza-se e, num desafio à lei da gravidade, os bailarinos da companhia dançam com irretocável desenvoltura numa parede cenográfica de 6,60m de altura por 8,40m de largura.

 

Criação, Coreografia e Direção DEBORAH COLKER

Direção Executiva JOÃO ELIAS

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