Bailarinos amarrados com cordas, corpos que se aprisionam e se libertam, movimentos inspirados

em um cavalo, dançarinos entrelaçados, uma mulher presa pelos cabelos. Em seu sétimo espetáculo,

Nó, a coreógrafa Deborah Colker transforma em dança um tema demasiado humano: o desejo.

 

O espetáculo, que estreou mundialmente no Tanzfestival Movimentos, em Wolfsburg, Alemanha, traz os elementos que tornaram a companhia um fenômeno de comunicação com o público – o virtuosismo coreográfico, a precisão e o vigor dos bailarinos, a exploração e a ocupação de novos espaços cênicos –, mas está impregnado de novidades.

 

Vestindo figurinos do estilista brasileiro Alexandre Herchcovitch, os bailarinos fazem de Nó um espetáculo ao mesmo tempo violento e delicado, brusco e sensível, chocante e amoroso, onde a dramaturgia se torna evidente.

 

No primeiro ato, eles se movimentam em meio a um emaranhado de 120 cordas. Cordas que dão nós e que simbolizam os laços afetivos que nos amarram. Cordas que servem para aprisionar, para puxar, para ligar, para libertar. Numa companhia marcada pela disciplina, foram necessários meses de treinamento exaustivo para lidar com o acaso das cordas, já que a cada dia os movimentos saíam diferentes.

 

Também foi preciso dominar novas técnicas. Deborah utilizou a bondage (técnica com cordas para controle da dor, do movimento e do prazer) e também o conhecimento de todos os tipos de nós, aprendidos com um marinheiro, para contribuir na construção sua coreográfica.

 

Mas a sofisticação técnica foi banhada por conceitos filosóficos. Para dar conta da complexidade do tema,

a companhia modificou o seu sistema de trabalho e, paralelamente aos trabalhos físicos, introduziu aulas de filosofia com o professor Fernando Muniz.

 

Deborah levou mais de dois anos para elaborar o espetáculo, que tem co-direção de Flavio Colker.

De novembro de 2002 até a estreia, dez roteiros foram escritos, entre os ensaios e as apresentações

da companhia pelo Brasil e pelo exterior.

 

No segundo ato, saem as cordas e o palco é ocupado por uma caixa transparente de 3,1 x 2,5 metros,

uma criação do cenógrafo Gringo Cardia. A inspiração veio de uma viagem que Deborah fez a Amsterdã, Holanda, onde visitou o Red Light District (Bairro da Luz Vermelha), em que garotas de programa se expõem em vitrines nas fachadas das casas. Neste aquário gigante, feito de alumínio e policarbonato

– material usado na blindagem de carros –, os bailarinos se enlaçam, se atraem e se repulsam, se atam

e se desatam. É uma metáfora do desejo, daquilo que se quer, mas não se pode pegar, daquilo que se vê, mas não se pode ter, daquilo que se ambiciona, mas não se pode realizar. Ao fundo, a voz de Elizeth Cardoso em Preciso aprender a ser só, ilustra a solidão daquelas mulheres e de seus “clientes”.

Os bailarinos equilibram técnica clássica e contemporânea em movimentos delicados e brutais.

 

A ficha técnica traz os nomes que acompanham Deborah desde o surgimento da companhia. Jorginho

de Carvalho é responsável pela iluminação, João Elias, o diretor-executivo, e a direção musical é de Berna Ceppas, que desta vez optou por uma trilha menos pop e mais conceitual. No primeiro ato, um zumbido intenso é seguido de guitarras, da harpa de Alice Coltrane e de músicas que buscam o estranhamento, compostas por Ceppas e Alexandre Kassin. A este início hardcore se segue o lirismo de Ravel, como que

a mostrar que é possível encontrar delicadeza em meio a um universo de perversão.

 

O segundo ato começa com Chet Baker (My one and only love) e transcorre sob um fundo musical

que inclui Moacir Santos (Coisa nº 9), o tema de Spartacus e a divina Elizeth (Cardoso).

 

A novidade é o figurino de Herchcovitch, que abusa do erotismo com suas malhas cor de carne,

com partes em preto ou vermelho.

 

Com um olhar voyeurístico, o público acompanha os bailarinos num espetáculo visceral, recheado de elementos fetichistas como cabelos e cordas. Deborah evita eleger vítimas e culpados. Ela quer mostrar que, nas relações de dominação, há espaço para a escolha e para o consentimento. Um domina e o outro

é dominado, mas os papéis se invertem e se misturam. Os nós humanos se fazem e se desfazem, a perversão seduz, a sedução perverte.

 

– Nó que estrangula e sustenta, que aperta e libera o desejo, que impede e aproxima – sintetiza Deborah.

Ao lançar Nó, a Companhia de Dança Deborah Colker, surgida no cenário artístico em 1994, a já havia colocado em cena Vulcão, Velox, Mix, Rota, Casa, 4 por 4 e Dínamo – apresentados com sucesso em países como Inglaterra, Itália, Alemanha, Áustria, França, Nova Zelândia, EUA, Canadá, Argentina, Colômbia e Chile. Com Mix, a coreógrafa ganhou, em 2001, o prêmio Laurence Olivier, um dos mais prestigiados das artes cênicas em Londres, na categoria Outstanding Achievement in Dance (Destaque em Dança).

 

De volta à cena com um espetáculo de 59 minutos, ela mantém a intensa comunicação com o público,

ao mesmo tempo em que atiça a sensibilidade e nos leva a investigar partes inexploradas de nós mesmos.

 

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