ROTA

Rota – [do francês route.] - caminho, direção, rumo; [do latim rota, ae.] - roda, rotáceo

 

As infinitas possibilidades de exploração de caminhos pela dança contemporânea e a presença em cena do maior símbolo da invenção humana dão vida e movimento a Rota, espetáculo lançado pela Companhia de Dança Deborah Colker em 1997.

 

Terceira coreografia original e quarto espetáculo apresentado pela companhia carioca, Rota descreve seu giro e seu curso em torno dos grandes eixos de sustentação do trabalho da coreógrafa Deborah Colker: a utilização do gesto, síntese do movimento, como um poderoso ele­mento de expressão cênica; a apropriação de movimentos oriundos de outras práticas do corpo; e as reflexões sobre as forças que regem o movimento, gênese da dança. Incursiona também pelo balé clássico, passeia pelo jazz, e promove, em dois atos e seis movimentos, uma ocupação radical do espaço cênico.

 

I ATO: Allegro - Ostinato - Vigoroso - Presto

 

Linhas negras (pontilhadas, cheias, retas, curvas, enviesadas) riscam a eletrotela branca, de 15m X 7m, que serve de fundo ao palco. Espelhado no linóleo, o gigantesco molde de corte e costura reveste a cena. Neste cenário, que remete também a um mapa de navegação, desenrolam-se os quatro movimentos do primeiro ato de Rota.

 

Allegro – Sobre as notas solares e impregnadas de júbilo da Serenata Noturna K 239 em Ré Maior, de Mozart, os bailarinos de Colker exibem a técnica clássica que exercitam com afinco e regularidade desde os primórdios da companhia. Mas, como que contagiados pelo espírito alegre e irreverente do gênio de Salzburg, o fazem com pitadas de humor e transgressão. Com os pés/impulso no clássico e as mãos/pulsação no contemporâneo, eles se lançam em giros, saltos e piruetas próprios da escola clássica para, num misto de graciosidade e estranhamento, desaguar no repertório gestual colkeriano. São changements de pied, temps levés, entrechats, cabrioles, grands fouettés, arrematados com estalos de dedos, coçadas na cabeça, bofetadas no próprio rosto etc

 

Tutus românticos, para elas, e ternos de corte moderno e modelagem justa, para eles, sublinham a dança harmônica dos contrastes, enquanto a luminosidade ruidosa e jovial de um baile de época varre a cena.

Ostinato – No segundo movimento, a relação de forças se inverte. Mais breves e menos frequentes, as alusões ao balé clássico diluem-se no vasto vocabulário de gestos e movimentos coloquiais, ordinários, cotidianos, que constitui um dos veios principais da gramática cênica de Deborah Colker. Os ternos elegantes dão lugar a camisas-esporte; os tutus deixam as armações de crinolina; o clima de gala se desfaz. Está em pauta, agora, o jogo de luzes, sombras e repetições que permeia nosso dia-a-dia.

 

O sopro divino de Miles Davis, o beat techno do Aphex-Twin, o piano de Thelonious Monk, a guitarra solo de Pedro Sá são alguns dos sons que, daqui pra frente, se sobrepõem - distorcidos, deformados, decompostos, especialmente compostos ou simplesmente aplicados - no antropofágico patchwork sonoro criado por Berna Ceppas, Alexandre Kassin e Sérgio Meckler para ambientar o espetáculo.

 

Vigoroso – A vocação atlética da companhia adentra a cena no terceiro movimento desta pequena suíte coreográfica. Vestidos em collants de perna curta, os corpos dos bailarinos projetam-se no espaço cênico numa sucessão vertiginosa de saltos e roladas. É apenas o começo do grand finalle do primeiro ato.

 

Presto – Sobre mais um tema da fase áurea da chamada Música de Divertimento - o Quinteto em Lá Maior opus 114, A Truta, de Schubert  (1797-1828) -, trespassado pelo canto de baleias do Atlântico e do Pacífico, o espetáculo mergulha em estado líquido. Transbordantes de alegria e cingidos por um verde-azul marinho, os bailarinos da Cia Deborah Colker se lançam em um mar imaginário, onde remam, nadam, dão “peixinhos”, numa vigorosa sequência de evoluções aquáticas sobre o linóleo, em que as mãos são utilizadas quase tanto quanto os pés. Presto. Chega ao fim o primeiro ato de Rota.

 

II ATO: Gravidade - Roda

 

Quando o pano se abre, já está em cena o grande emblema do novo espetáculo da Cia Deborah Colker: a Roda construtivista e davinciana, erigida em ferro pelo cenógrafo Gringo Cardia. Com dois aros de 4,5m de diâmetro, interligados por um feixe de degraus; o eixo apoiado num suporte triangular de 3m de altura; e emoldurada por uma estrutura inteiriça de metal, onde pontificam quatro escadas de 6,7m de altura (duas laterais e duas de fundo), a Roda se mantém estática ao longo de todo o prólogo do segundo ato. Exibindo uma plasticidade primitiva e prodigiosa, mas ocultando, ainda, o seu engenho.

 

Gravidade – Uma luz de suaves contornos azuis delineia as duas esculturas que compõem a imagem inaugural de Gravidade, uma de ferro, outra de corpos. Caminhando em estado de flutuação sobre os braços entrelaçados de quatro pares de bailarinos que, posicionados frente a frente, atravessam lentamente o palco na diagonal, uma bailarina enfrenta o primeiro da série incontável de desafios que marcará os trinta e três minutos do segundo ato de Rota. Com os corpos despidos por sungas e maiôs de recortes variados, a trupe de Colker mergulha agora em uma espécie de atmosfera espacial, marcada pela ausência de gravidade. E, em meio a manobras milimétricas e vagarosíssimas, que demandam um equilíbrio resistência muscular incomuns, desenha com seus corpos uma coletânea de formas abstratas.

O inusitado balé em câmara lenta prepara, pouco a pouco, o ambiente para o quadro de encerramento do espetáculo.

 

Roda – Trazida por um dos bailarinos, chega enfim ao centro da cena a mais perfeita tradução material

da investigação em torno da física e da mecânica do movimento, que marca os primeiros trabalhos da

Cia Deborah Colker: a Roda. Simultaneamente, outras duas escadas laterais são conduzidas até a boca

de cena.

 

Com o espaço cênico multiplicado por diversos planos e níveis, a coreógrafa que virou a dança contemporânea parede acima (ar)risca movimentos em todos os sentidos e direções. Sem abandonar o linóleo cor de cobre, a ação propaga-se por cada uma das seis escadas e pelos meandros da Roda em movimento, desenhando uma profusão de imagens de grande impacto visual. Impulsionada pelas mãos e pelos corpos dos bailarinos, a enorme estrutura metálica gira numa valsa orbital, onde, entre retalhos de efeitos e sons, ecoam os acordes do Conto dos Bosques de Viena, de Johann Strauss II (1825-1899) - outro grande mestre austríaco da Música de Divertimento. Para que a Roda “dance conforme a coreografia”, a precisão é fundamental. A mais ligeira incorreção no emprego da força física, por parte do elenco, pode botar tudo a perder.

 

Está novamente em cena a palpitante combinação de perigo e ludicidade, cerne da aventura humana, e uma das marcas registradas do trabalho de Deborah Colker. Um misto de frêmito e encantamento percorre a plateia. Como se um parque de diversões penetrasse em cada um dos espectadores: visto de fora, mas intensamente percebido, com sua montanha russa de sensações, por dentro.

 

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