TATYANA

Por Irineu Perpetuo

(versão condensada)

 

O mais novo trabalho de Deborah Colker foi buscar inspiração em um clássico da literatura universal. Tatyana leva aos palcos os personagens do romance em versos Evguêni Oniéguin, de Púchkin.

 

O mulato (seu trisavô materno era filho de um príncipe africano) Aleksandr Púchkin (1799-1837) é considerado o “pai” da literatura russa moderna. Escrita ao longo de sete anos, entre 1823 e 1830, Evguêni Oniéguin é sua obra mais original e importante, e inspirou diversas criações em outras áreas – da célebre ópera de Tchaikovski (1879) ao filme com Ralph Fiennes (1999), passando pelo balé de John Cranko.

 

A trama é aparentemente simples: Oniéguin é um jovem abastado, cosmopolita e entediado, que abandona as diversões da cidade grande para se refugiar na propriedade rural herdada do tio. Lá, conhece o jovem poeta Lenski, noivo de Olga Lárina, a cuja irmã mais velha, a contemplativa Tatyana, é apresentado. Seguem-se a declaração de amor da moça, sua rejeição por Oniéguin, um duelo fatal entre os amigos e um doloroso reencontro do casal, quando o passar dos anos operou neles transformações profundas e decisivas.

 

Para expressar a força poética e a magia do romance, a Companhia de Dança Deborah Colker leva ao palco o próprio Púchkin, interagindo com as ações, desejos, pensamentos e modificações dos quatro protagonistas de sua obra-prima. Trata-se, afinal, de um espetáculo de balé contemporâneo, interessado antes em traduzir sentimentos do que em traduzir uma narrativa.

 

Embora o livro tenha sido escrito e ambientado na Rússia do começo do século XIX, uma das razões de seu perene vigor e atualidade é transcender as barreiras de tempo e espaço - virtude que é reforçada neste espetáculo. Assim, não veremos no palco os estereótipos russos das balalaicas e matriochkas: o cenário é constituído de uma grande árvore metálica, em torno da qual e em cujos ramos Púchkin e seus personagens desenvolvem seus sonhos, angústias e quereres.

 

Tampouco os figurinos pertencem a este ou aquele local ou período, servindo para caracterizar inequivocamente cada personagem com uma mistura de elementos “atuais” e “de época”. E, analogamente, a trilha sonora, embora seja marcada pela predominância de compositores russos, faz coexistirem autores de diversos períodos, do romantismo de Tchaikovski ao modernismo de Stravinski - e as partituras desses grandes mestres do passado, por seu turno, passa pelo filtro contemporâneo das colagens e remixagens de Berna Ceppas.

 

Desse cruzamento de linguagens, estéticas e referências, baseado em um estudo aprofundado da obra-prima de Púchkin, surgiu um espetáculo vibrante e atual, que enfrenta o desafio de exprimir sem palavras o sublime contido nos versos de um clássico da literatura. 

CONTATO
/ CONTACT US
WEB Opus NÓ_Natal-11.png