Por
DEBORAH
COLKER
Cafi me apresentou Pernambuco. Ele nasceu em Recife, veio para o Rio, mas continua pernambucano. Por causa de Cafi conheci as obras de Mestre Vitalino, Gilvan Samico. E, é claro, João Cabral. “Como é muito mais espesso/ o sangue de um homem/ do que o sonho de um homem.” Eu tinha só 20 anos. Foi tudo muito forte.
João Elias me reapresentou O cão sem plumas. Estávamos num desses engarrafamentos cariocas de três horas, quando ele me deu um livro com o poema. Comecei a ler e chorar.
Decidi construir com os bailarinos um bicho-homem. Nos ensaios, eu não deixava que eles se soltassem. Eram outras referências, e não só nordestinas. Samba, jongo, kuduro... Construí com eles o corpo de um caranguejo.
E é um espetáculo sobre coisas inconcebíveis, que não deveriam ser permitidas. É contra a ignorância humana. Destruímos a natureza, as crianças, tudo o que é cheio de vida.
Minha história é uma história de misturas. Em Cão sem plumas, cabem a elegância do clássico, a lama das raízes e o olhar contemporâneo. Para mim, o nome disso é João Cabral.
Dedico este espetáculo ao meu neto Theo, que é meu timoneiro, ao seu maravilhoso avô Totoi (Toni Platão) e eternamente aos meus filhos, Clara e Miguel.



